ENTREVISTA
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Por Samuel Celesino no site "Bahia Notícias"

Wgner: a política e a gestão: um documento

"A Bahia era um risco no chão; quem está a favor, quem está contra. Agora, isso aqui é uma pluralidade e eu me orgulho muito disso".

SAMUEL CELESTINO:  Governador, quero dividir esta entrevista em duas partes: uma  administrativa, e a segunda política. Vou começar pela administração. O senhor foi eleito por governar quatro anos, e tem grandes possibilidades para fazer um segundo mandato. Admitamos que o senhor fique apenas nos quatro anos para os quais foi eleito, que legado acha que deixará para o Estado da Bahia em termos de obras?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: O primeiro legado será a modernização da máquina administrativa do Estado. Apesar do que se falava muito de gestão nos governos anteriores, eu encontrei uma máquina administrativa, à exceção da Secretaria da Fazenda, que se preparou bem, pelo ponto de vista da informatização e da modernidade, embora estejamos melhorando, as outras secretarias e a estrutura de gestão do Estado eram, em minha opinião, muito arcaicas. Os sistemas internos não se conversavam. Agora introduzimos um grupo de tecnologia da informação para modernizar, estamos modernizando toda a gestão e informatização da gestão em saúde, em educação, o próprio DETRAN, que estava extremamente ultrapassado. Do ponto de vista das ferramentas para a gestão e a própria transparência, que cada vez é mais buscada na gestão pública, eu tenho tranquilidade para dizer que vamos entregar um Estado muito mais moderno do que aquele que recebi para os próximos gestores.

        Vamos entregar uma máquina muito melhor do ponto de vista das licitações, da forma como tudo está sendo feito. Posso lhe garantir que vamos entregar um Estado muito mais moderno, então isso é um avanço. Vamos deixar um legado do ponto de vista da educação e saúde. Hoje, nós temos 18 hospitais em construção, sendo novos ou em reforma, ao longo do Estado inteiro;  400 postos de Saúde na Família que vamos entregar até o final de 2010;  então não tenho dúvidas que ampliamos muito o número de atendimentos e cirurgias eletivas, porque iremos entregar uma máquina de saúde infinitamente melhor do que a que recebemos. Na área de educação, evidentemente, muita coisa aconteceu com a parceria com o governo federal. Nós vamos entregar o Estado com nove escolas técnicas. Antes de te receber, estava aqui exatamente com o secretário de Educação; só para estes dois anos que faltam, o orçamento passa de 200 milhões em reformas e construção de novas escolas.

        Já multiplicamos por seis o número de matrículas nessa área e acabamos de colocar 22 mil televisões com DVDs em todas as salas de aulas de escolas públicas e estaduais para melhorar o conteúdo, porque as escolas mais distantes às vezes têm dificuldades de acesso. Vamos entregar tudo isso em rede, a partir do Instituto Anísio Teixeira, que será a unidade geradora. Vamos poder fazer, inclusive, através de teleconferências um processo para melhorar a qualidade pelo ensino à distância, porque com o tamanho do Estado, nem tudo poderá ser presencial. Na área de infra-estrutura está aí o Complexo Dois de Julho, a Via Expressa da Bahia de Todos os Santos, que já está licitada e começando a mobilizar. Eu vou entregar um Derba totalmente reequipado com 220 máquinas novas compradas no ano passado, pois estavam totalmente sucateadas. Conseguimos R$ 1 bilhão de reais de empréstimo do Banco Interamericano e praticamente metade disso será utilizado na estrutura rodoviária.  O Porto de Salvador já vai à licitação ou convênio para duplicação da área de contêineres aqui, portanto vai começar a virar uma realidade. Logo a Vale estará licitando o primeiro trecho da Ferrovia Leste-Oeste de Ilhéus até Brumado, para atender exatamente à mineração. O novo aeroporto de Ilhéus, eu estive esta semana na Infraero e tenho o compromisso de até abril já estar com tudo pronto.

        A área de referência já está escolhida que é entre Ilhéus e Itacaré, perto de onde será o Porto Sul. Vamos fazer lá, na verdade, um complexo logístico. A ferrovia, a rodovia que já existe Ilhéus-Itacaré, o aeroporto e o porto. Então, a minha idéia é fazer dali um complexo logístico e, para trás, indo para Itabuna, temos uma área que é ZPE. A nossa idéia é fazer outro vetor de desenvolvimento para aquela região, em torno de Ilhéus.  Aí, modéstia a parte, pode perguntar a quem circula pelas estradas também, estão com uma qualidade bem superior ao que estava sendo feito. Vamos entrar no tema que virou essa polêmica, a ponte Salvador-Itaparica completando essa estrada Camamu-Itacaré e o outro trecho até Belmonte. Pretendemos realizar uma estrada litorânea belíssima, que vai sair de Salvador e chegar a Ilhéus com quatro horas de viagem de carro. Será também mais um vetor importante para o desenvolvimento do turismo.

        Óbvio que o estádio para a Copa do Mundo até 2010 não estará edificado, mas certamente já estará licitado e com a nossa modelagem economica toda pronta para o nosso Estádio da Fonte Nova de Salvador, para a Copa do Mundo de 2014. Então estamos discutindo com o governo federal; com a prefeitura de Salvador o chamado PAC mobilidade urbana que vai entrar exatamente atuando nas cidades que vão ser sede da Copa do Mundo. Portanto, tudo aquilo que fica depois de uma Copa que é um veículo leve sobre trilho e sobre pneus que vai fazer ali o vetor da paralela para desafogar aquele trânsito.

        Acho que posso dizer também como legado o Estádio de Pituaçu que, apesar da controvérsia, será lembrado porque acabou virando um ícone aqui para o esporte baiano. O Programa Água para Todos acho que vai ficar uma marca. As pessoas me perguntam porque dizem que eu bato pouco bumbo para as coisas que fazemos. Mas, por exemplo, o Programa Água para Todos não dá repercussão. É uma obra gigantesca. Já ultrapassamos o poço de número mil, perfurado nesses últimos dois anos. Levar água e melhorar o acesso à água para um milhão e trezentas mil pessoas, a repercussão não é pouca, porque quem vive no sertão, quem vivia sem água, ter água é uma emoção e estamos levando água para muitos lugares. O volume de obras que a Embasa e a SERC estão fazendo é muito grande. O programa "Topa", se atingirmos a nossa meta hoje, chegaremos perto de um milhão de pessoas saindo do analfabetismo.

        Na verdade, Samuel, quando as pessoas falam de legado as pessoas pensam muito em cimento, concreto e tijolo. Eu acho que o legado não é só isso, mas estou te dando alguns legados como o novo Hospital de Salvador, no subúrbio, o novo Hospital da Criança, em Feira e o Complexo Dois de Julho. São marcas que seguramente vão ficar, como a Via Expressa da Bahia de Todos os Santos, que vai desafogar todo o trânsito ali em torno da Rótula do Abacaxi. Seguramente, alguém vai dizer "quem fez isso aqui foi o governador Wagner". Em relação ao administrativo citei alguns casos, como esse programa Água para Todos eu acho que fica, e essa preparação toda de infra-estrutura que estamos fazendo, como o novo Porto Sul, a rodovia, a duplicação do aeroporto de Salvador, agora a renovação do Porto de Aratu, sinceramente acho que já são algumas marcas que plantam o desenvolvimento para mais de trinta anos.

SAMUEL CELESTINO: Governador, vamos completar essa pergunta porque falei em legado para quatro anos. As possibilidades de o senhor fazer um segundo mandato são amplas. As pesquisas estão demonstrando e eu perguntaria, pedindo síntese: admitamos que o senhor faça, como é possível, um segundo mandato. Como o senhor pretende desenvolver aquilo que começou neste primeiro mandato quando passou dois anos para tomar conhecimento da máquina estadual e para modernizá-la. Como é que pretende governar a Bahia oito anos, como a deixará em 2014? Apesar de futurologia, acho que é possível dizer alguma coisa.


        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Na resposta da primeira pergunta eu te dei as bases daquilo que estamos fazendo, como atração de novas indústrias no oeste, como a nova processadora de algodão que é a maior da América Latina, e o esforço que estamos fazendo também para trazer novos negócios para cá. Se eu tiver e o povo entender que devemos ter um segundo mandato, evidentemente vamos aprofundar e consolidar isso. Primeiro, como você mesmo disse, agora a equipe está chegando à velocidade de cruzeiro, mas ainda com problemas que temos que mudar aqui, mudar ali, mas os dois primeiros anos é isso mesmo; você toma conta da máquina, vai azeitando a equipe, porque no segundo ano tem eleição municipal.  De certa forma, o ano do calendário é muito mais político que administrativo e, em minha opinião, até repetindo palavras que ouvi do presidente Lula quando esteve aqui na última segunda-feira, "agora é que eu sinto que as coisas estão funcionando", porque ele, que tinha dúvida sobre a minha reeleição, dúvidas sinceras quando conversava comigo, disse: "Ó Galego, agora é que eu vejo que todo mundo melhorou, porque o que tinha para errar aconteceu nos primeiros quatro anos. Então, agora é o pique, as coisas começam a acontecer. Isto porque na estrutura burocrática da administração, às vezes se leva um ano para fazer um projeto, seis meses para fazer a licitação e, depois, é que as coisas começam a andar. Mas o que farei em mais quatro anos? Consolidarei esse projeto de modernização da infra-estrutura e gestão baiana colocando a Bahia para continuar crescendo.

        Eu acho que a Bahia ainda tem um potencial imenso do agronegócio da indústria e do turismo para se desenvolver. Temos uma posição geográfica privilegiada para virar pólo logístico indo para a Europa, África; se a ferrovia for virando realidade, inclusive para o oeste em direção ao Pacífico. Acho que podemos consolidar e dar uma amplitude de crescimento grande para a Bahia. 

SAMUEL CELESTINO: Seus adversários políticos costumam procurar, em função de questões do passado, quando se comparava muito e se estabelecia, no Nordeste, uma competição entre a Bahia e Pernambuco, dizer que Pernambuco está realizando mais com o governador Eduardo Campos do que a Bahia, sobretudo em torno ali do Porto de Suape, com a Refinaria do Nordeste, enfim, com as obras que estão sendo realizadas por lá. Que resposta o senhor daria sobre isso a seus adversários?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Primeiro, que eu não estabeleço essa competição com Pernambuco, porque a nossa economia é praticamente o dobro da economia pernambucana e é obvio que é muito mais fácil crescer quando se é muito menor do que quando você é maior. Qualquer investimento menor em Pernambuco soa muito mais alto do que aqui. A Petrobras está investindo um bilhão de reais na modernização e reformulação da refinaria lá de Candeias (Landulpho Alves), e às vezes as pessoas não vêem porque o nosso PIB é muito maior. Um bilhão em Pernambuco soa o dobro do que soa aqui. De qualquer forma, eu digo que não estou competindo, pois tenho a visão de desenvolvimento do Nordeste como um todo e é óbvio que a Bahia está na liderança disso tudo, porque, repito, nós somos a maior população, o maior Estado, o maior PIB que dá o dobro praticamente do PIB de Pernambuco. Agora, nós já tínhamos uma refinaria, o presidente Lula querer colocar mais outra refinaria no Nordeste; não ia ser aqui. Nós temos um pólo petroquímico, então não vou fazer um novo pólo petroquímico aqui. O que estou fazendo é, como disse, "Pólo Mais Trinta". Fui à Venezuela para buscar isso, uma parceria com a petroquímica venezuelana junto com a Braskem, para trazer mais uma unidade nova da petroquímica para cá. Repare: eu não acho que estão realizando mais.  Às vezes essa conta é feita de uma forma, Samuel, muito pequena. Eu não tenho ciúme e inveja. Nós estamos trazendo aqui, estão aí as indústrias que estão chegando na Bahia: Nestlé, Pólo Algodoeiro do Oeste. Eu não fico olhando para o ovo da galinha do vizinho, eu estou preocupado em fazer o meu. Agora, também tem a amizade com o presidente Lula, evidentemente que Lula é pernambucano, óbvio que ele tem carinho. Quero fazer uma nova escola técnica, estamos recebendo mais uma universidade federal; a Ferrovia Oeste-Leste.  A construção dela é de quatro bilhões de reais. Então as coisas não acontecem da noite para o dia, a Via Expressa são 380 milhões de reais. Está aí a duplicação das BRs 116 e 324. Sinceramente, não fico com olho gordo, quero que Sergipe cresça, Alagoas cresça, Pernambuco cresça. Agora, se estabeleceu essa dicotomia...

SAMUEL CELESTINO: Com oito anos de governo, ainda dentro dessa perspectiva de reeleição, essas obras citadas pelo senhor, a Via Portuária, a Ferrovia Oeste-Leste, todo esse contexto na região sul do estado, Ilhéus, Itabuna; enfim, tudo que o senhor colocou nesse elenco de obras administrativas, o senhor terminará todos esses projetos que tem na cabeça, em oito anos?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Não tenha dúvida, até 2014 a nova Fonte Nova, a Via Expressa, a Ferrovia Leste-Oeste, o novo aeroporto de Ilhéus, a duplicação do aeroporto de Salvador, o Porto Sul e a ZPE, (Zona de Procedimento de Exportação) na região de Itabuna, o Pólo Têxtil que eu quero fazer aproveitando o algodão do Oeste lá em torno também de Itabuna e Ilhéus. Não tenho dúvida de que até 2014 isso tudo estará entregue.

SAMUEL CELESTINO: Em 2014 então teremos uma nova Bahia?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Eu não tenho dúvida. Eu gosto de dizer, Samuel, que quando chegamos ao governo, acabei de trocar o secretário de Planejamento, o primeiro secretário sabe, as gavetas estavam vazias de planejamento. Eu não fico batendo boca, mas eu acho graça às vezes alguns adversários do governo anterior dizerem que nós não damos importância ao planejamento. É a primeira vez que esta terra tem um planejamento, então me permita a modéstia, que não é minha, é até da equipe que estava lá que é considerada pelos planejadores chamados benchmarking que é referência do planejamento pelos referenciais utilizadas e pela modernidade que tem -que eu quero te dizer- que eu não tenho dúvida de que hoje a gente vai ter e já tem um pensamento de uma nova Bahia que vai se concretizando com um projeto desses que é para 8, 12, 16 anos. Mas eu posso devolver a pergunta porque o pólo petroquímico foi Rômulo de Almeida que pensou e Luis Vianna que viabilizou com Geisel. A Ford, muito bem vinda aqui, mas chegou pelo acidente do Rio Grande do Sul, porque na verdade eles não trouxeram. Eles trouxeram foi a Hyundai e a Ásia Motors.

SAMUEL CELESTINO: Então a Bahia não ganhou, foi o Rio Grande do Sul que perdeu?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Não. Quando houve o programa automobilístico brasileiro o que o governo anterior conseguiu trazer foi a Hyundai e a Ásia que a gente brincava que gerava dois empregos. Dois vigilantes que tomavam conta da pedra fundamental de uma e de outra que nunca foram adiante. Eles só fizeram importar carro e até hoje devem uma conta imensa de IPI e de ICMS que não pagavam.

SAMUEL CELESTINO: Facilitando importações...

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: É, porque quando você dizia que ia construir uma fábrica, assinava aquele contrato, você ficava o período até a construção da fábrica com o direito de importar o próprio carro que você fabricava lá fora, sem pagar a taxa de importação como contrapartida da fábrica que você ia implantar. Eles nunca colocaram fábrica, então... Por exemplo, você me perguntou sobre Pernambuco, eu não quero ficar falando disso porque quero que Pernambuco cresça, eu acho que não iremos crescer olhando para Pernambuco, vamos crescer olhando para o futuro e não ficando com inveja de quem faz. "Ah! você viu? Ele está levando uma siderúrgica para o Pará”, eu digo "Bom, agora que estamos descobrindo um volume de minério de ferro maior aqui é obvio que se tivesse que colocar siderúrgica tinha que ser perto de Carajás", que é onde está o ferro. Mina você não faz onde quer. Você faz onde tem. Agora eu pergunto: Eles que diziam que amavam tanto a Bahia, se eu tivesse recebido como Eduardo Campos recebeu um Porto de Suape pronto, não foi obra dele, foi obra de Marco Maciel, de Jarbas Vasconcelos, não sei quem é que começou aquela idéia, há trinta anos. Vou voltar ao tema da ponte. Fica gente aqui ironizando.  Mas, se a gente não pensar grande o futuro da Bahia, não vamos chegar. Eu recebi um porto acabado, quebrado, o de Aratu, o de Ilhéus, o de Salvador, por isso que estou estrangulado, entendeu? Agora, me dê um porto de Suape...

SAMUEL CELESTINO: Se não houvesse a ponte Rio-Niterói, Niterói continuaria sendo uma cidade pequena.

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Nem o município de Campos seria o que é, foi um vetor desenvolvimento. Quando fizeram a ponte os críticos da área disseram "megalomaníaco, isso é para roubar dinheiro...", hoje, está lá a ponte Rio - Niterói. Já tiraram dela a circulação de caminhões pesados porque não aguenta o volume. A Av. Paralela, eu imagino, quando foi inaugurada, há trinta anos ou um pouquinho mais, seguramente nunca teve um engarrafamento. Hoje todo mundo sabe como é o trafego por lá. Eu tenho que fazer uma retro- área no CIA, porque ninguém aguenta mais colocar contêineres ali.

 SAMUEL CELESTINO: Como homem e administrador público, o que tem lhe dado mais prazer nestes dois anos e poucos meses de governo? E o que lhe dá mais dor de cabeça em termos de administração?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER:  O que me dá mais prazer é entregar obra e serviço para o povo. Isso para mim é a maior alegria. Você sabe que está melhorando a vida das pessoas quando você entrega uma escola, um posto de saúde da família, um hospital, ou quando você entrega um sistema novo de água. Isso para mim é o que dá alegria. Saber que você está podendo, sentado na cadeira do governador, melhorar a vida das pessoas pela sua ação, e o que mais me aporrinha é a burocracia. Esse é um resquício da ditadura, como vivemos vinte e poucos anos de ditadura, a Constituição de 1988 fez todas as proteções de tal forma que nós não pudéssemos mais nunca ser ameaçados por uma ditadura ou ausência de democracia. E nessa área, por exemplo, o Estado acabou colocando uma corrida de obstáculos para evitar corrupção e não sei se acabou virando uma dificuldade... Eu acho que o Estado tem que ser gerido com transparência, com um processo muito mais simplificado de gestão na licitação e uma fiscalização muito mais dura e muito mais aparelhada para poder fiscalizar. Então, hoje, o que me agonia é que você dá uma ordem aqui e vai procurar três meses depois e o negócio andou 10% do que se achou que ia andar porque é uma burocracia. Hoje cada pessoa que executa tem cinco para fiscalizar. Começa internamente na procuradoria, no Tribunal de Contas da União, no Ministério Público, e vocês, que são a melhor fiscalização, que é a imprensa (risos). Então, para cada um que faz, tem cinco. Essa burocracia que está aí me dá muita agonia. As coisas estão muito mais lentas do que deveriam. Eu acho o sistema de licitação nosso, a lei 8666, em minha opinião, está ultrapassada. Eu acho que desse jeito você demora, tudo é um entrave. Olha a obra do PAC toda hora tendo problema. Em minha opinião, eu ainda acho a estrutura do estado brasileiro muito pesada.

SAMUEL CELESTINO: Vamos passar agora um pouco para política que é, sobretudo, minha área, o que mais gosto, me dá prazer e tenho certeza que dá prazer ao senhor também que é por excelência um grande político e articulador. O senhor conseguiu, com sua vitória, abrir a Bahia. A Bahia que estava fechada há quarenta anos. Travada por um mesmo grupo político que acabou sendo derrotado, com sua vitória em 2006. A Bahia se tornou plural e mais apetitosa para os jornalistas, sobretudo, jornalistas como eu, posto que a minha função é analisar e pensar política diariamente. Como o senhor vê esse complexo, esse mosaico político que foi a sua vitoria que transformou e qual o trabalho que esse mosaico está lhe dando? É trabalho, ou é prazer?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER:  É trabalho e é prazer. Evidentemente que quando você monta articulação política é um tabuleiro de xadrez. É obvio que o prazer é muito maior quando você consegue sair vitorioso. Eu, primeiro, tenho profundo orgulho disso que você acabou de dizer. E olhe que esse estado aqui tinha no exercício da política um hermetismo ímpar no Brasil, em minha opinião. E a graça da política, como você diz, é o contraditório, o debate, que é a surpresa. A Bahia não tinha surpresa desde 1986. Talvez lá também não foi surpresa, pois a vitoria de Waldir correspondeu à vitoria do PMDB em 26 dos 27 estados da Federação. Só Sergipe que não. Então isso que você está falando, que eu acho extremamente prazeroso da política, o debate, montar articulação, atrair pessoas e seduzir para ampliar seu grupo. Aqui era muito pobre. A Bahia era um risco no chão: quem está a favor e quem está contra. Agora, eu me orgulho muito disso porque isso aqui é uma pluralidade. Eu vejo deputado chegar à Tribuna da AL, criticar o governo, numa tranquilidade danada, mesmo não estando dentro da base. Então hoje a política na Bahia é muito mais complexa do que foi. Estava empobrecida e simplificadora. Quem está aqui ganha, quem está fora daqui perde. Então isso me dá prazer e, ao mesmo tempo, me dá mais trabalho, porque óbvio, um hegemonismo que tinha no tempo do PFL era uma hegemonia muito empobrecedora da política. Hoje, eu tenho que trabalhar muito mais do que os que me antecederam para manter a minha hegemonia, porque as pessoas têm liberdade, todo mundo conversa com todo mundo, porque depois de minha vitoria, teve a ausência física do senador Antonio Carlos Magalhães que era o grande comandante do grupo político do PFL.

SAMUEL CELESTINO: E era o único que falava política, além da oposição.

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Pronto, quem é a liderança deles que brotou? Não brotou. Óbvio que o ex-governador Paulo Souto é um nome no cenário político, afinal de contas foi duas vezes governador, senador, é um nome, mas vamos dizer, quem é a grande liderança política que assumiu com naturalidade? Tem o neto dele, foi candidato, perdeu, mas sem dúvida nenhuma está longe de exercer o comando. Então, a política ficou mais complexa, mais difícil, novas lideranças estão surgindo e se afirmando, porque o espaço ficou aberto. Então vem a competência e se estabelece. Agora, óbvio que me dá trabalho, mas não fico nem um pouco triste por esse trabalho não, porque sou democrata convicto, que trabalhei, e nem gosto de estar falando nisso, mas muita gente ficava falando que a política aqui só iria mudar depois que o senador ACM falecesse e eu dizia que se a gente não conseguisse mudar antes de ele morrer, seria uma demonstração de nossa incompetência. E Deus me deu a graça de a gente poder mudar com ele vivo e observando a nossa vitória. Mas, hoje, muito mais complexo porque não tem aquela coisa do risco no chão. Tem governo, tem oposição, mas todo mundo se conversa. Eu acho, também, até porque só tem dois anos e três meses que ganhamos, que estão sedimentados os agrupamentos. Estamos em constante movimento. Óbvio que há um grupo do DEM que é consolidado, onde se tem a figura do ex-governador Paulo Souto, do deputado ACM Neto, do deputado Aleluia, do senador César Borges, então ali tem um agrupamento. Tem o agrupamento do PT, do PMDB, com a figura de Geddel. Tem outras figuras que estavam meio adormecidas que podem querer voltar para o cenário político, na medida em que este esteja ficando mais enriquecido. Sinceramente, quando você me perguntou o que me dava mais prazer na área da gestão, foi aquilo que falei, mas na área da política, sinceramente, tem um orgulho que carrego: é ter podido devolver essa complexidade e garanto que até para você deve estar sendo muito mais interessante fazer jornalismo...

SAMUEL CELESTINO: É natural, hoje tenho assunto a escolher, antigamente tinha às vezes que sofrer e ainda ser difamado, como se fazia de maneira geral com os adversários.

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Você devia ter um foco só...

SAMUEL CELESTINO: Exatamente.

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER:  Naquele tempo também as pessoas não tinham nem coragem de falar com o medo do tapa e da bronca que iriam tomar. E hoje não, as pessoas fazem críticas ao governador abertamente.

SAMUEL CELESTINO:  O senhor falou nesse mosaico amplo e tenho certeza, como mesmo disse, que o quadro ainda não está formado e cristalizado. Também penso dessa maneira, pois acho que abrindo essa democratização da Bahia vai permitir, mais cedo ou mais tarde, o surgimento de novas lideranças; novas cabeças; novas formas de se pensar. Pode ter até sequência daquilo que se fizer nessa geração da qual nós pertencemos. Eu sou mais velho do que o senhor, mas pouquíssima coisa. Muito pouco mesmo. Acho que as coisas poderão ser melhores na medida em que surjam novos líderes. Veja: o senhor falou que não há essa cristalização ainda, mas citou três agrupamentos. O agrupamento do DEM, com Aleluia, o deputado ACM Neto, com o ex-governador Paulo Souto, como foi colocado; uma parte do PR, com César Borges; o agrupamento do PT, que o senhor lidera. Então, vejo a política da Bahia como se fosse uma pirâmide, no ápice, o governador da Bahia e nas duas pontas, nos dois vértices da base, o DEM, com o governador Paulo Souto, sem dúvida alguma liderando, até porque deve ser o candidato do agrupamento ao governo, e, no outro vértice, o seu aliado, o ministro Geddel Vieira Lima, diante das vitórias das prefeituras que o PMDB conquistou nestas últimas eleições. Quando existem críticas vindas de adversários do DEM e críticas ou alguma coisa semelhante vindas do outro vértice, do PMDB, qual é a que lhe dói mais?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER:  Olha, evidentemente, não sei se dói mais, mas a que recebo com menos naturalidade é a do PMDB que, afinal de contas, o partido foi aliado na campanha, é aliado no governo federal. Eu falo isso sem nenhuma arrogância ao PMDB antes, e o PMDB depois de ter se aliado ao projeto que colocamos. Em 2002, eu já acreditava na possibilidade da vitória, mas não foi possível essa aliança, até por conta da verticalização. O PMDB e o PSDB lançaram Luis Prisco Viana; o PSB porque não tinha candidatura, lançou Itaberaba Lira, e da oposição era só. Ali, conhecemos os resultados, ninguém cresceu muito de 2002 para 2006. Em 2006, quando o PMDB aceitou um convite de nos juntarmos, juntamos nove partidos e saímos vitoriosos, mudou da água para o vinho, pois após a vitória, todos os partidos de nossa base agregaram prefeitos na Bahia inteira e eu agreguei parlamentares em minha base de sustentação. O mais beneficiado, por mérito próprio, ou pela característica partidária, sem dúvida alguma, foi o PMDB que, mesmo antes da eleição de 2008, já tinha visto seu quadro de prefeitos sair de 22 ou 24 que tinham para 120, 130 e, evidentemente, não é porque eu o fiz ministro; não se trata disso; mas, evidentemente, sendo um grupo vitorioso na Bahia, deu peso para que a Bahia cobrasse, através do PMDB, mais um ministro para a Bahia. Portanto, só para esclarecer, para não parecer uma idéia arrogante, porque não é o meu perfil, Geddel hoje é ministro por mérito dele, porque ele se viabilizou dentro do PMDB, que foi o que o presidente Lula disse para ele e para mim no dia que fui conversar com ele, depois de nossa vitória. Agora, evidentemente, fazer parte do grupo vitorioso no quarto colégio eleitoral do país, na sexta maior economia do país, deu ao PMDB baiano um protagonismo dentro do PMDB nacional, que passou a ser um player de importância. Eles têm o vice-governador e deu ao PMDB baiano um crescimento, pois passou a ter um ministro e a própria figura de Geddel. Mas é mérito dele, Samuel, até porque para mim aliança só vale a pena quando ela é boa para todo mundo que participa da aliança, que significa crescimento. Hoje, nas eleições, o PT cresceu, PCdoB cresceu, o PSB cresceu, o PV cresceu e o PMDB cresceu; todos os partidos. A característica e o trabalho que o PMDB fez tem o detalhe de que tem um partido com mais capilaridade de que outros, como esses que citei, como o PCdoB, que saiu de uma, duas prefeituras, para vinte. Até cresceu, proporcionalmente, mais que o PMDB. Acho que saiu de uma para vinte, se não me engano. Então multiplicou por vinte. O PMDB saiu de 22 para 115, multiplicou por cinco. O PT saiu de vinte para sessenta, multiplicou por três. Evidentemente que todo mundo cresceu. O PMDB eu bato palmas, porque eu não quero aliado fraco, eu quero aliado forte. Agora, quando você me pergunta o que me chateia mais é isso, porque, afinal de contas, se a aliança foi boa para todo mundo, eu preferiria ver os ícones do PMDB elogiando, obvio que internamente, obvio que eu não gosto de puxa saco, internamente. Já que participamos de um grande governo, teríamos que fazer crítica do que tem que melhorar, o que não tem que melhorar, mas óbvio que preferiria ver o PMDB sendo mais um a falar bem do governo porque é natural, você me conhece, sou modesto, então chatearia mais porque, afinal de contas, o PMDB está dentro do governo, está dentro do governo federal, temos, creio eu, o mesmo projeto para 2010, mesmo que não assumido, se tiver vai ter que declarar que tem outro projeto. Então, obvio que para mim o que interessa é fortalecer. Aliás, como eu fortaleço o PMDB.

SAMUEL CELESTINO: O quadro político da Bahia ainda não está totalmente formado, e é lógico que não esteja formado, na medida em que tem dois anos e três meses que o quadro foi mudado pelo senhor, com a vitória que conseguiu impor às forças carlistas ainda com o senador vivo. Eu lhe perguntaria se acredita que existem possibilidade e viabilidade de este quadro político mudar até as eleições de 2010?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER:  Olha, se depender de mim não vai mudar. Eu estou trabalhando para ampliar a aliança que me elegeu em 2006. Ninguém tem sucesso na política, dividindo-a. O sucesso da política é consequência de se somar. Eu somei nove partidos em 2006 e ganhamos. Se depender de mim eu quero somar dez, onze, doze. E estou trabalhando para isso. Já temos o PP dentro do governo, o PDT, que em 2006 não estava em meu palanque, apesar de termos apoiado o senador João Durval, o palanque deles era outro. Era do bispo Átila. Estou querendo trazer o PSC, o PP já está dentro do governo, estou trabalhando para que estejamos juntos em 2010. Uma parte do PR está dentro do governo e dá mostras de que quer seguir até 2010. Eu acho que é uma loucura, em minha opinião, de que as forças que fizeram aquela travessia tão bonita que deu à Bahia essa nova complexidade. Elas se fissuraram abrindo espaço para outras. Eu acho que precisamos consolidar o projeto que está em curso; que cabe ao PT, PMDB, o PP, o PCdoB, o PSB, o PDT, o PV, PTB, todos esses que queremos construir. Se as pessoas acham que se não houver mais ameaças, que era a hegemonia do PFL, por isso podem se subdividir, mas esta não é minha tese e eu vou trabalhar fortemente, já estou trabalhando para que isso não aconteça. Eu acho que a vida é longa, tem muito espaço para todo mundo crescer. Em 2006/2007 na revista Istoé fui eleito como o político do ano pela vitória que parecia impossível no primeiro turno, o que ficou mais inusitado ainda. Você sabe que eu trabalho com muita humildade. Eu digo que a melhor companhia para os vitoriosos é a humildade e a generosidade porque quem ganhou é quem tem que ser generoso e humilde, pois quem perdeu está machucado. E nem todo mundo aprende essa lição que tento dar e depois que ganha quer ficar espezinhando os outros. Então se diminui ao invés de ampliar. O presidente Lula, todo mundo sabe - é público - esteve aqui segunda e terça-feira, disse isso publicamente. "Olha para o processo político da Bahia, desta forma para garantir uma Bahia unida em torno do nome até agora da ministra Dilma para a sua sucessão. Então, eu não faço política só por vaidade, eu faço política fundamentalmente por projeto político, e o meu projeto político é de modernização da Bahia, de democratização da Bahia, passa por fortalecer esse grupo que a gente ganhou; fez bem para todo mundo. Vou repetir, a minha vitória não fez bem para mim, para o PT, ela fez bem para todos os aliados, graças a Deus. Eu trabalho desse jeito, dando oportunidade para que todo mundo cresça. Eu acho uma bobagem, sei do que está perguntando,  e eu acho que o PT e o PMDB devem estar juntos. Não vejo nenhuma dificuldade para isto acontecer.

SAMUEL CELESTINO: Eu diria e, já não é uma pergunta, mas um comentário que não necessita resposta. Eu acho que sua vitória fez bem não para esses grupos todos, mas fez bem para toda a Bahia na medida em que abriu a Bahia, na medida em que as fronteiras da Bahia se tornaram maiores em termos do pensamento político, porque as pessoas passaram a ter liberdade de pensar o que, antes, não tinham...

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER:  Deixa que faça o último comentário sobre essa questão da abertura. As pessoas às vezes não se dão conta, mas essa abertura fez bem para a administração pública da Bahia, para a competitividade do empresariado baiano, para o Judiciário porque, como isso que você falou, antes todos tinham que pedir amém. Se só valesse o que fosse dado amém, a competitividade ia por água a baixo. Estou dizendo isso porque, neste sofá que está sentado, sentam empresários e todos me dizem: "Governador, poder ser empresário na Bahia está mais leve. Alguns, às vezes, brincam: "hoje eu posso ir para o Barbacoa ou o Baby Beef, ou em qualquer lugar, sem ter preocupação de com quem estou jantando, porque não vai perturbar o meu negócio, o desenvolvimento de minha empresa. Eu quero lhe dizer que tenho extremo orgulho disso, de estar exercendo autoridade sem intimidar ninguém. Os negócios da Bahia estão melhores, as pessoas hoje vêm para a Bahia porque sabem que a mão do estado não está aqui para constranger ou intimidar quem quer que seja.

SAMUEL CELESTINO: E não tem que tomar benção a ninguém, como antes...

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Certo. O que me interessa é o interesse público.

SAMUEL CELESTINO: Governador, eu vou voltar à administração, à política administrativa. Eu nunca lhe fiz essa pergunta, já conversamos muito, pois vejo às respostas pela imprensa. Mas o senhor nesse período de dois anos e três meses, mudou três secretários. Secretário da Agricultura, Segurança Pública e atualmente o de Planejamento. Como o senhor disse, porque mudou as estratégias do jogo, saiu da retranca para ir ao ataque. Então precisa de um homem de meio campo para fazer o lançamento em profundidade. Se eu entendi o seu linguajar político-esportivo, eu lhe pergunto: o senhor ainda tem em mente, como disse no ano passado, fazer uma reforma administrativa em seu secretariado ou só o fará na medida das necessidades e à medida em que seus projetos forem avançando?

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER:  Primeiro, quero dizer, pela dificuldade que tive no começo do governo, de me apropriar da máquina, eu também acho que estamos dentro dessa nova Bahia que falamos; mais complexa, mais arejada, mais democrática. É bom lembrar que foram 16 anos, olhe lá se não foram quarenta, do PFL. A formação de quadros na Bahia ficou muito vinculada para uma formação de quadros de uma nova lógica de governar. Então, também não era fácil você ter quadros. Essa máquina foi dominada por eles o tempo todo, apenas com aquele hiato do governo de Waldir. Então, a máquina, as estruturas aqui funcionavam no ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo'. Os quadros do funcionalismo público foram desestimulados a planejar, raciocinar, a ter iniciativa, porque não adianta ter iniciativa onde só vale o que o cara quiser. E mesmo os quadros da esquerda todos foram formados com o vício só do lado direito de jogar pedra. Eu brinco com eles que todo mundo teve que reprogramar a cabeça e os braços porque agora, no governo, você não tem que atirar. Muitas vezes, você tem que se defender. Então, é aquilo que você falou; mesmo no jornalismo, muitas pessoas foram desestimuladas, só era aquela guerra. O jornalismo é muito mais inteligente do que uma simplificação de confronto onde é certo e errado, então aí não tem graça para escrever.

SAMUEL CELESTINO: Claro.

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER:  Ficar no ‘a favor e contra' é um negócio pobre. Então eu, às vezes, quando as pessoas me cobram: "Ah! Por que você não muda um determinado fulano?" Porque eu sei que tem muita gente que está sendo formada. Isso aqui não é SP, onde uma sucessão de governos democratas, tanto faz PFL, PSDB, PMDB, mas você foi formando quadros, na estrutura do poder público são quadros de estado. Aqui não teve porque como era esse negócio todo dia, um tacão de cima para baixo, então as pessoas estavam desestimuladas. Só para explicar porque às vezes não sou tão rápido no gatilho para trocar. O que realmente não está andando, eu vou lá e troco. Eu não vou fazer reforma administrativa, mas posso lhe garantir que outras mudanças acontecerão, seja da ordem da política, dentro daquilo que lhe falei, da ampliação, e ai é obvio, à medida que as pessoas vão ampliando e tendo um horizonte de compromisso com as inovações do projeto em 2010. Interessa-me se as pessoas se querem vir participar do governo. Evidentemente que isso aí está acontecendo. E outras são de ordem administrativa. Se eu achar que outra área está com problema, é fazer substituição.

SAMUEL CELESTINO: Vou fazer uma correção, se me permite, do que o senhor disse ai. Eu não acho que o domínio tenha sido 16 ou quarenta anos, eu acho que tenha sido mais do que isso. Creio que o domínio da Bahia começa em 1930, depois do Movimento Tenentista, da República Velha.  Depois de chegar à Bahia, com a Revolução de 1930, o tenente Juracy Magalhães como Intendente, para estabelecer a política do coronelismo. Veio, posteriormente, o período da democratização da Bahia, com Mangabeira, segue-se o governo de Regis Pacheco, que foi um governo fraco; o governo de Antonio Balbino, quando Antonio Carlos Magalhães, então um Juracisista, se elegeu pela primeira vez deputado estadual (foi numa eleição complementar). Vem um novo governo Juracy, o governo Lomanto Jr. e a ditadura. E, ai, ACM com ela...

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Na verdade o grande foi Otávio Mangabeira.

SAMUEL CELESTINO: Sim, o grande foi Mangabeira. E na República Velha, J.J Seabra. A partir da ascensão à Prefeitura de Salvador é exatamente aí que acontece o início do carlismo. Depois da gestão do governador Luis Viana Filho, ele foi nomeado governador. Perdeu, após, a sucessão (no Alto Comando das Forças Armadas da ditadura) para Roberto Santos. Voltou como governador, em 1978; faz João Durval governador como sucessor, depois da morte, num acidente aéreo, do seu candidato, Clériston Andrade. Em sequência, perde para Waldir, e volta, em 1990, para fazer o período até ser derrotado pelo senhor em 2006. Mas, governador, para concluir, quero lhe agradecer, pois de há muito não sou repórter. Eu sou um analista. Não sou de pergunta e resposta; as pessoas bem sabem disso. Portanto, quero em meu nome pessoal, e em nome do meu site, Bahia Notícias, agradecer  ao senhor esta conversa inteligente e por ter tomado tanto seu tempo aqui na Governadoria.

        GOVERNADOR JAQUES WAGNER: Por mais que tenhamos que manter o ato de fazer entrevista, regulamentar o jornalista  à distância do entrevistador e do governador, evidentemente que eu não consigo sair de uma conversa franca. Amigo, por mais que lhe olhe como um jornalista, você sabe que não consigo. Eu, por mim, preferia até estar em minha casa, como te convidei para ir.  Mas, também, de qualquer forma, é bom que seja aqui. Lá em casa seria um bate-papo. E aqui no gabinete do governador, fizemos esta entrevista. Quero dizer que o prazer é meu, a deferência, espero que tenha gostado de tomar a posição do entrevistador e não só do articulista. Mas não só. Dizer que assim como para a Bahia foi importante a minha vitória, também para a Bahia foi importante a sua tenacidade e obstinação de ter se mantido numa posição de independência, buscando construir e fazer. Não vou dizer uma verdade, mas sim a sua verdade, o seu jeito de ver as coisas, independente da força de quem tivesse mandando. Agora fica mais gostoso, mas também esse momento é possível, assim como agradeço sempre ao Judiciário, pelo movimento de libertação deles, que tomo como referência Cintra. Eu não quero ser injusto, mas ele era comandante do grupo. Eu digo sempre que se sou governador hoje, é porque o Judiciário de nossa terra voltou a ser Judiciário, ou está voltando. Mas, assim como a gente está aqui porque enfrentamos o obscurantismo que teve você, por exemplo, e outros, evidentemente; que não deixaram de fazer um jornalismo correto. Para encerrar, óbvio que vaidade todos nós temos, você de sua coluna e de seu veículo Bahia Notícias como história de jornalismo, e eu de minha trajetória política, por ter chegado aqui fugindo dos governos militares, tendo que trabalhar como peão no pólo petroquímico de Camaçari e hoje estar sentado na cadeira do governador e tendo sido galvanizador de um processo que a Bahia, eu acho, esperava há muito tempo. Eu vou continuar assim, estou comprometido para 2010 com um projeto na Bahia e no Brasil que acredito ser a renovação de um projeto com outra pessoa do projeto político (Dilma Rousseff) comandado pelo presidente Lula. Esse é meu palanque proclamado e declarado. De consolidação desse projeto político para o qual eu vou convidar todos que participaram dele em 2006 e os novos parceiros que queiram se agregar na jornada de 2010.

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