CRONICAS/POESIAS/PROSAS
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A Mancha 

Por Antonio Monteiro                

                Daniel chegara por volta das quinze horas da tarde. A viagem de trem de Salvador a Queimadas tinha sido um tanto cansativa. A estação da Leste, naquele dia 23 de agosto de 1952, estava cheia de gente e mercadorias por toda a calçada.

                Era o seu retorno à cidade depois de dezoito anos fora. Sem parentes e sem dinheiro suficiente para se hospedar num hotel ou mesmo numa pensão, dirigiu-se à Rua da Bomba, zona do baixo meretrício. Seu instinto o conduzia a arrumar uma meretriz que cobrasse barato pelo prazer e pela dormida até o dia seguinte, quando procuraria trabalho e pousada.

                Naquele horário as meretrizes mais novas ainda dormiam cansadas da batalha travada na noite interior. Somente as mais velhas, sentadas em seus banquinhos de madeira, aguardavam fregueses inexperientes, marinheiros de primeira viagem, que se arvoravam à luz do sol para degustarem damas de quinta grandeza.

                Apesar de já terem sido usadas por inúmeros homens, as meretrizes mais velhas eram as menos perigosas para se pegar uma doença venérea. Calejadas da vida mundana, sabiam se tratar melhor que as jovens bonitas de lábios carnudos, bumbuns arrebitados e coxas grossas. Para Daniel pouco importava a idade da meretriz. Queria apenas prazer e descanso barato.

                Trajado com terno de linho branco, que de tanta goma brilhava ao sol, e chapéu de feltro, deu o primeiro passo tímido na rua, na expectativa de um: “Psiu! Venha cá, painho, vamos fazer amor!”

                O sinal negro e peludo na face esquerda, na feira de Água de Meninos, em Salvador, onde trabalhara como carregador, não passou despercebido aos companheiros de jornada que o apelidaram de o mancha. Mas em Queimadas ninguém sabia desse apelido. De quem herdara aquele sinal marcante ele não sabia, pois não havia conhecido nem pai nem mãe. Driblava solitário as dificuldades impostas pela vida, criado pela universidade do submundo.

                Quando saiu de Queimadas, ainda criança, levado por um motorista de caminhão, que cinco anos depois o abandonara á própria sorte na feira de Água de Meninos, viveu ao léu, alimentando-se da esmola dos feirantes e dormindo sob as marquises dos armazéns, até que se fez adulto.

                Cresceu como uma erva daninha, arrancado pela raiz e jogado mundo afora, levando pedrada e chute da vida. Felizmente não dera para marginal. Oportunidade não lhe faltara. Porém da maconha e da cola de sapateiro já havia experimentado.

                As meretrizes, naquela tarde já engolida pela noite, pareciam não estar dispostas a ganhar dinheiro, ou se achavam menos valiosas que o freguês elegante e ansioso, que andejava pela rua.

                A lua despontara no céu iluminando a rua de um prateado estonteante. Daniel estava quase para desistir quando um “psiu” lhe chamou a atenção. Não titubeou. Foi em direção à meretriz.

                Maquiada excessivamente, o cabelo longo outrora negro agora ostentava um meio branco cobrindo parte do rosto. Ela não era nem tão nova nem tão velha. Daniel nem a olhou direito. O preço estipulado caiu bem no bolso do rapaz.

                As meretrizes velhas, geralmente, têm pouco valor financeiro. Rostos enrugados, lábios murchos, corpos decrépitos. É preciso o homem estar muito necessitado para preferir uma dama dessa qualidade. Mas tem macho para qualquer tipo de mulher!

                A meretriz mais nova gosta de fazer amor sob o brilho da luz, para mostrar as curvas perfeitas do belo corpo. Ao contrário da velha que, esporadicamente, quando tem sorte de ganhar um freguês, previne-se apagando a luz do candeeiro para não deixar o cliente depreciar suas deficiências físicas.

                Daniel, vexado, meteu-se entre as pernas da dona, saciando de imediato sua fome. Nenhum beijo, nenhum carinho, nenhuma palavra de ambos. A meretriz descansada acendeu um cigarro enquanto seu parceiro se refazia. Nesse momento, num ímpeto de conhecer o corpo daquela que havia lhe proporcionado o prazer, Daniel, carinhosamente, passou a mão na face esquerda da mulher, descobrindo, para sua surpresa, um sinal peludo.

                Chocado, levantou-se e acendeu o candeeiro. Era o mesmo sinal que ele carregava na face. Neste momento, uma companheira de bordel chama pela meretriz: - Dona mancha, o turco está aqui! E, assim, desse modo reles, Daniel conheceu sua mãe.

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 No meio do caminho tinha um halloween

                Jamais esquecerei esse acontecimento em Queimadas: a luminosidade pequena, as minhas retinas embaçadas, a chuva caindo em perpendicular no pára-brisa do meu carro, a vida lenta, o homem caminhando a passos largos tentando empunhar o guarda-chuva quebrado; a menina brincando na chuva, o cachorro molhado se sacudindo em vão; a estrada esburacada; o bairro afastado do centro pedindo clemência á prefeitura; a escola barulhenta.

                A professora Mônica Monteiro e esse que lhes escreve, estávamos a desenvolver um projeto sobre “a importância da leitura no ensino da língua portuguesa, com alunos de 5ª série do ensino fundamental” nessa escola barulhenta da periferia. Nosso projeto, como professores da língua pátria, era o de compartilhar conhecimento com rincões distantes de nosso mundo urbano.

                Era um dia muito especial para a literatura brasileira. Afinal, comemorava-se o centenário de nascimento do poeta maior. As pessoas, o rádio e a televisão só falavam nisso. Por isso, escolhemos trabalhar com alguns textos de Carlos Drummond de Andrade.

                Mas, no meio do caminho, tinha um halloween. Eu explico. Após as primeiras atividades de rotina: chamada, pedidos desesperados pelo silêncio, broncas e sermões, em estado de euforia me dirigi à classe, perguntando que data tão especial estávamos comemorando naquele dia.

                Responderam em uníssona voz: “o halloween, professor”.

                Diante dessa resposta, ficamos estáticos, mudos, apavorados. As luzes se apagaram, um certo medo pairou no ar. Caveiras, monstros e vampiros pegaram carona na vassoura da bruxa americana, atravessaram oceanos e pousaram em nossa sala de aula, travestidos de alunos. Nossa indignação era tão grande que, por alguns mágicos instantes, conseguimos vê-los fantasiados a caráter.

                Foi uma aberração deparar com tal fato. Aqueles alunos conheciam tão bem o dia das bruxas americano e nunca tinham ouvido falar de um brasileiro chamado Drummond.

                E agora, José?

                “Inda” falei com meus botões: o que esta acontecendo?

                Quantas e quantas dessas crianças, de uma rua qualquer, em plena infância, não tiveram uma pedra no meio do caminho?

                Tinham uma pedra no meio do caminho, sim. Uma pedra vesga; americana. Pedra atípica; estranha. O momento de afastá-la tinha que ser agora, imediatamente, hoje!

                Antes que a tarde findasse e o silêncio se fosse, aproveitamos o cansaço da chuva e falamos aos borbotões do mineiro de Itabira. Da sua trajetória desde o interior de Minas Gerais até a cidade do Rio Janeiro. Da sua estátua de bronze em tamanho natural, sentado em um banco do calçadão da praia de Copacabana.

                Declamamos suas poesias e contamos seus contos maravilhosos, afastando de uma vez e para sempre o halloween do caminho daquelas crianças.

Antonio Monteiro 

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Feliz Dia do (a) Amigo
Isso é apenas uma demonstração do qeu sinto pelas pessoas que fizeram e fazem parte da minha vida ...

Amigo é muito mais
Do que alguém pra conversar, alguém pra abraçar
Amigo é uma bênção
Que vem do coração de Deus pra gente cuidar

É assim que você é pra mim
Como uma pérola que eu mergulhei pra encontrar
É assim que você é pra mim
Um tesouro, que pra sempre eu vou guardar

Amigo, eu nunca vou desistir de você
E Pela tua vida eu vou interceder
Mesmo que eu esteja longe meu amor vai te encontrar
Porque você é impossível de esquecer

Eu acredito em você
Eu acredito nos sonhos de Deus pra tua vida
Amiga eu oro por você
Porque a tua vitória também é minha ....

vc é mto especial pra mim .... meu Querido[A] amigo .... nunca vou me esquecer de vc!!!

BeijOooOOOos...! No coração!'

 

Por Antonio Monteiro
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 07-07-2009

A fé, a esperança, e a razão

Por Antonio Monteiro*

                O dia amanhecera preguiçoso e frio. A noite tinha sido mal dormida. O apartamento iluminado artificialmente com uma luz vermelha e mortiça. A expectativa do meu porvir estranhamente habitava meu ser racional. Aprontaram-me cedo, vestindo-me uma indumentária atípica para meus costumes habituais.

                Elas chegaram de branco, sem um sorriso e me fizeram engolir uma pílula. As roldanas da cama começaram a se movimentar e faziam eco no imenso corredor de piso de mármore. Eu tentava, com um olhar lateral, rever, quiçá, pela última vez, o dia, o sol, toda gente num vai e vem. Mas, pela única janela que passei vi, ligeiramente, um céu cinzento, uma chuvinha fina e, em seguida, as paredes verdes do corredor que continuaram em direção ao centro cirúrgico.

                Ainda guardava, nos cantos dos meus olhos, umas gotas de lágrimas contidas à força do pensamento e a doce umidade nos meus lábios, deixada pelo que me parecia o último beijo de minha vida. Naquele instante do beijo, a pressa das meninas de branco fê-lo sair um tanto suave, leve, quase não tocado.

                Em silêncio eu era conduzido para a morte ou para a vida. É assim mesmo, quando estamos no corredor a caminho da câmara de gás ou a caminho do centro cirúrgico.

                Aquela despedida de minha esposa, rigorosamente freada pelo regulamento da instituição, era uma separação triste, de mais de sete meses de convívio. Partilhamos lado a lado, no dia a dia, um sofrimento às vezes mudo, outras vezes nem tanto, em nosso apartamento.

                Enquanto nos distanciávamos um do outro, sob fortes emoções, sentíamos uma grande dor no coração, como se estivesse se aproximando o momento de nos separarmos para sempre.

                A tríade: fé, esperança e razão digladiavam-se. Para a minha esperança havia uma grande fé. A minha fé não me deixava perder a esperança. No entanto, minha razão, teimosamente, naquele instante de despedida entre mim e minha amada, lutava para derrotar a minha grande fé e a minha grande esperança de sair vivo daquela cirurgia.

                Incorrigível, a razão me dizia baixinho que aquela despedida seria a última. Que nunca mais neste mundo nos veríamos. Aplacando a maldita razão, ainda à distância pude notar o meu grande amor acenando para mim, entre um sorriso meio apagado, meio vitorioso.

                Vozes... Mais vozes. É um que pega aqui ou dali. Corpo nu, braços abertos, furadas e um sussurrar vagaroso que tomou completamente o meu silêncio. Antes de cair em sono profundo, pensei se um dia acordaria para ver o céu, o sol, o mar, a noite, as estrelas, a lua, o fogo. Ah, o fogo! Quanta importância tem o fogo na vida!

                Dormir, quer queira ou não, é um exercício diário da morte, pois, para algumas pessoas ela chega e deita, cerceando-lhes completamente os sentidos. A outras dá o direito de acordar.

                O sono pesado, próprio de uma cirurgia, abraçou-me com vigor. Literalmente, eu deixara de existir para mim e para o mundo. Nada ouvi. Nada vi. Nada senti. Aquele adormecer pode nos levar a dois caminhos: a vida e a morte. Eu estava à mercê das duas. Porém, na contenta entre a fé, a esperança e a razão, as duas primeiras estavam em vantagem, no mínimo dentro de mim.

                Pensava que, assim como meu filho, que dormiu quinze dias e não mais acordou, eu também padecesse do mesmo mal. Os diagnósticos médicos não me eram convincentes. Quinze dias na U.T. I, transfusão de sangue, possíveis perdas de órgãos importantes e outros quinze dias no hospital.

                Entretanto, graças a Deus, contrariando as expectativas, na tarde do mesmo dia da cirurgia, ouvi uma voz, a princípio distante, que me chamava: - Amor!... Amor!... Está me ouvindo?

                Aos poucos, as pálpebras pesadas da anestesia foram se abrindo, os meus olhos tentando identificar o ambiente: o teto, os aparelhos ligados ao meu corpo... Não pude deixar de sentir um grande alívio ao saber-me vivo.

                A voz adocicada continuou sussurrada. Virei-me então para a esquerda e vi algo encantador, inesquecível, inimaginável: A minha esposa, envolta em uma luz amarela, tão resplandecente quanto a luz do sol. O seu sorriso era mais belo que o mais famoso do mundo, o da Monalisa. Sua voz saiu cálida: - Amor, a cirurgia foi um sucesso... Tiraram tudo... O cisto saiu inteiro, sem afetar nenhum órgão... Você está livre desse pesadelo. Você está curado!

                Dos seus olhos castanhos escorriam lágrimas de felicidade. Não contive as minhas. Fechei os olhos. Agradeci a Deus e a ela, companheira dessa jornada longa e triste de minha vida, porém vitoriosa.

                E o futuro me absorveu. Ah, o futuro! Daqui por diante, poderemos delinear o nosso com mais esperança, com mais segurança, andando lado a lado como andam os casais apaixonados, porque o ser feliz é possível, sim, porque caminhamos com a felicidade dentro de nós. É só expô-la. Exercitá-la diariamente. Embora invisível, torná-la palpável na grandiosidade dos nossos sentimentos, das nossas generosidades. No compadecimento de irmãos que ainda precisam sorrir e serem amados e felizes.

                Obrigado, meu Deus! Obrigado Mônica, minha esposa dedicada.

                Eu te amo!

* Escritor queimadense

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Data 08/09/2010
De Marcelo Torres
Assunto Crônica: Baiano que é baiano...

Crônica: Baiano que é baiano...


Baiano que é baiano fala porra a cada dez palavras. Na Bahia, porra é tudo, menos a porra improperiamente dita Brasil afora, ops, Brasil adentro.
Como diz o 'embaixador' Renato Fechine (um paraibano que abaianou de vez), porra na Bahia é adjetivo, substantivo, interjeição, adjunto adnominal e advérbio de modo, de tempo, de lugar, de intensidade... da porra toda.
"O cara mora na casa da porra" = mora longe. Também pode-se dizer: "Ele mora na casa da desgraça", que é a mesma coisa, ou seja, mora longe pra caramba.

Baiano que é baiano aguenta comer pelo menos dois acarajés sem passar mal... Se você não sabe, acarajé é hambúrguer de baiano.

Baiano que é baiano chama as amigas de "ordinárias" e elas não se incomodam, não se sentem ofendidas - ao contrário, sabem que é um tratamento carinhoso.
Na Bahia, você olha para sua amiga (seja ela pretinha, branquela, loira ou morena) e a chama de "nigrinha" e ela acha o máximo.

Baiano não admite fulerage pu seu lado. Traduzindo: não gosta de cheiro mole. Oxente, não entendeu? Ah, você precisa se matricular num curso de baianês.
Pegar ou bater um rango e filar a bóia significam a mesma coisa, ou seja, almoçar, comer, matar quem tá te matando.

Baiano que é baiano não bebe. Come água. Fica em águas. "Ontem Fulano estava em água dura". Tradução: estava trêbado, pra lá de Maracangalha.
O baiano, quando chama um brother pra beber, fala: "Rumbora cumê água".

Todo baiano chama Graça de Gal, Wagner de Wal, Gilberto de Gil... Para meus amigos, parentes e aderentes, eu não sou Marcelo. Sou Macelo (engolimos o "r"). Sérgio é Sejo, terça-feira é têça-fêra; bar é bá e cerveja é ceveja.

Baiano que é baiano engole a letra "d" do gerúndio: - Qué qui cê ta FAZENO? -Eu tô DURMINO... Caminhano e cantano e seguino o trio elétrico...

Numa roda de baianos e baianas, quando alguém chega após ter tomado banho, alguém sempre diz: "Ó pai, chegou toda tomada banho". Traduzindo: "Ela chegou limpinha, cheirosinha".

Baiano que é baiano sabe o significado da frase: "O cara tava mais enfeitado que jegue na Lavagem do Bonfim". Ou seja, usava excessivo número de adereços e enfeites.
Baiano sabe que brown [bráun] não é a forma carinhosa de chamar Carlinhos Brown, o omelete-man. Brown é adjetivo de pessoa brega-espalhafatosa-cafona. O motorista que põe mil adesivos no carro, o cara cheio de colares de prata e pulseiras. "Que cara mais brown!"

Baiano que é baiano sabe o que é "lavar a jega". É se dar bem, levar vantagem, lavar a égua, lavar a burra.
Todo baiano sabe que jante não tem nada a ver com o verbo jantar. Na Bahia, jante significa aro de pneu. "Rodar na jante", no sentido denotativo baiano, é o carro rodar com o pneu vazio ou furado. Mas, na putaria, rodar na jante é transar sem camisinha.

Baiano que é baiano sabe o que é nestante. É "nesse" + "instante" = daqui a pouco. Baiano fala pra semana (na próxima semana), parumês (no próximo mês) e paruano (no próximo ano). "Paruano sai milhó", diz o dono do bloco de carnaval.

Só baiano sabe o que é falar "de hoje a oito". "Meu aniversário é de hoje a oito", ou seja, é daqui sete dias. Baiano que é baiano fala horas de relógio. "Fiquei duas horas de relógio esperando aquele filadaputa". Em geral, fala-se "horas de relógio" quando se quer enfatizar atraso, demora.

Baiano é convidado para um aniversário e leva uma renca de amigos (renca = muitos, uma catrupia, muita gente).
Baiano fala na moral em vez de por favor... "Pega isso aí pra mim, na moral".

Baiano vive dizendo que Sergipe é o quintal da Bahia... E o sergipano adora a Bahia e os baianos. O baiano de Salvador parece não querer ser nordestino e esculhamba o sotaque de sergipanos, alagoanos, pernambucanos, potiguares, paraibanos... (não deveria ser assim, mas é, infelizmente).

Baiano chama ônibus de humilhante e taxista de taquicêro.
Baiano acha legal quando dizem que ele é "retado"; "boca de zero nove" ou "um pinico cheio"... Ê baiano porreta! O baiano, quando tá indo embora, não diz "tô indo"; ele diz "tô chegando". Não vai embora, se pica. "Vou me picar" significa "vou cair fora".

Na Bahia, é comum você tratar um amigo, um colega ou um desconhecido de "pai". Se for mulher, "mãe". "Venha, pai". "Venha, mãe". Também é comum tratar um desconhecido como "maluco", mas é uma forma carinhosa. "Vai, maluco".

Quando se diz "A reunião não teve um pé de pessoa", se quer dizer que a reunião não teve ninguém.

"Colé a de mermo?", pergunta um baiano ("qual é a boa?"). E o outro responde: "É niúma" (significa "tudo bem").

Baiano não usa o termo arretado, que é uma invenção dos outros. Baiano fala "retado". Raul Seixas canta uma música que diz: "Não planto capim guiné pra boi abanar rabo/ Tô virado no diabo/ eu tô retado com você. Tá vendo tudo e fica aí parado/ Com cara de veado/ Que viu o caxinguelê". "Tô retado" significa "tô zangado". Mas retado também exerce a função de superlativo: "É bonito que é retado" [é muito bonito]. "O cara é retado de feio" [é muito feio]. Quando se diz "Ele é um cara retado", significa, "é boa praça".

A Bahia é o único estado que começa com B - de Brasil.
O mapa da Bahia é quase igual ao do Brasil, você já viu?
A Bahia tem a maior costa marítima do País, você sabia?
A Bahia faz divisa com oitos estados (do Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste).
Salvador é a terceira cidade mais populosa do país, você sabe? [Não, nem os soteropolitanos sabem disso.]
De acordo com um magérrimo satirista baiano, chamado Gordurinha, um baiano é uma coisa divertida; dois baianos, uma boa pedida; três baianos, uma conversa comprida; quatro baianos, um discurso na avenida. Ééééé.

Diz-se, também, o seguinte:
1 baiano = um escritor famoso
2 baianos = uma luta de capoeira
3 baianos = um grupo de axé
4 baianos = um terreiro de candomblé

* Marcelo Torres, jornalista, baiano, cronista e torcedor do Vitória (alguns trechos deste texto são de autoria anônima, extraídos de mensagens recebidas pelo cronista).













Data 01/08/2010
De Gercilio Montenegro da Silva
Assunto pesar pela perda irreparavel de Humberto Belo da Silva


cujo passamento em abril deixou essa lacuna afetiva. peço, por favor, que façam chegar a dona Binoca e fanmilia os nossos sentimentos ainda que tardios. Sou filho adotivo dessa terra, filho de Eliezer, telgrafista da estrada de ferro e Dona Santa que tambem se torrnou ferroviario, tambem telegrafista. desculpem não fazer comentario sobre o texto lido.
meu email é gercilio@marinav.com.br.

Data 20/07/2009
De filha de Queimadas
Assunto Nao conheço!!!!

Sou filha de Queimadas de familia conhecida, amo esta cidade e este povo guerreiro ,peço desculpa pois como escritor Queimadense tento buscar na lembrança e não consigo, já algum tempo que sai dai, mas sempre atenta tudo que se refere a Queimadas, então refresque minha memoria e diga-me que famila é a sua? belos poemas!!! sucesso um forte abraço !!!

 
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 A Lavagem da Igreja de Santo Antônio

31-06-2009

Por Antonio Monteiro*

                  A bandeira de Queimadas à frente, conduzida por um elegante cavaleiro. Um cantor cantava a música do vaqueiro. Atrás, centenas de cavaleiros montados em seus belos cavalos. A multidão, tal cobra gigante, se arrastava mansamente pelas ruas.

                  O cortejo saíra da Praça de Jonga. Da porta da casa 273, na Praça da Bandeira, meus olhos viam pela primeira vez o espetáculo da lavagem da secular igreja de Santo Antônio, criada por meu sogro, Abelardo Borges de Oliveira, em 1970, quando prefeito do município.

                A festa, para mim, agora era real. Algo somente idealizado em meus pensamentos de filho saudosista, durante minha ausência de mais de 50 anos.

                Um trio elétrico soma-se ao cortejo, com músicas tradicionais: axé, samba, timbalada, pagode. Em cima do trio, moços, moças, crianças, idosos, em remelexos coordenados. Carroceiros e carroças enfeitados de um colorido exuberante. Uma multidão entusiasmada e foguetada, em euforia. Foguetes pipocando no céu. A bandinha do Chalet, constituída de crianças, fazia o batuque com seus tambores cor do arco-íris. O boi do bumba requebrava, fazendo evoluções com os seus brincantes fantasiados de reis e rainhas.

                O candomblé, representado por seus pais de santo, mães de santo e baianas com suas vestes brancas, blusas de renda e saias bem rodadas. O projeto Queimadas, com crianças do Brasil e Itália, em roupas típicas de regiões de ambos os países.

    

            Não poderia faltar o boneco gigante, lembrando Olinda, com seu grupo fantasiado de príncipes, princesas, meninas princesas, reis meninos, que, de tanto brilho, ofuscavam o sol do meio dia.

                Um caminhão, com cantadores e seus instrumentos rústicos que entoavam músicas do velho sertão. Músicas da roça, que só o sertanejo sabe cantar na hora em que a enxada sangra a terra seca e um punhado de sementes é enterrado para mais tarde lhe dar o sustento da família.

            Os cantos dos cantadores contradizendo os roncos das máquinas do grupo de motoqueiros apitantes. O cortejo é pequeno, em vista dos cortejos das décadas de 70 e 80, quando a versão religiosa era mais evidente

A versão profana da lavagem

                Nos idos de 1970, quando a festa da lavagem da igreja foi criada, seu Abelardo não queria a participação de trios elétricos, uma tradição no carnaval baiano e até nas festas do Senhor do Bonfim, de Nossa Senhora da Conceição, largo da Ribeira, Iemanjá, Boa Viagem e outras. “Apenas - dizia o prefeito - quero a lavagem da igreja de Santo Antônio das Queimadas, religiosa. Com carroças enfeitadas, o santo na frente, cavaleiros, grupo de bicicletas, vaqueiros, baianas a caráter. O povão atrás, nos passeios, nas portas das casas e nas janelas, apreciando a beleza da festa”.

                Hoje, na rua onde se inicia a subida para a igreja, calçada de paralelepípedos (por seu Abelardo)e lado a lado: palanques, parques, camelôs , barracas oferecendo todo tipo de comida baiana e não podendo faltar o tradicional e delicioso bodinho assado na brasa.

                O prefeito Abelardo ficou apenas dois anos na administração do município. Em plena ditadura, sem ajuda dos cofres do governo estadual, segundo comentários de pessoas que o conheceram, fez em dois anos um grande trabalho, que o prefeito anterior não fez em quatro.

                Após a sua morte a festa mudou radicalmente. Descaracterizou-se. Então, vieram os trios elétricos. E a lavagem religiosa transformou-se em profana. O povo gostou. O baiano adora um carnaval. Os trios elétricos somente trouxeram mais alegria para o acontecimento. Contudo, os padres da igreja de Santo Antônio, na tentativa de proibir a profanação do evento, só permitem aos trios elétricos puxarem os seus cordões de gente até a praça.

                Embora a festa da lavagem da igreja de Santo Antônio exista há trinta e nove anos, salvo engano, ainda não faz parte de um calendário oficial de festividades de Queimadas. Porém, o povo não a tira da memória. Infelizmente, todo ano é um grande tormento, porque as autoridades administrativas do município ficam num empurra - empurra, num sai - não sai... Este ano vai dar...

                O belo dia se faz noite de lua cheia, prateada como os cabelos de Nonato Marques. Sentado na porta de casa vislumbro, através da praça da Bandeira, atualmente com um nome diferente que muita gente nem conhece, os trios elétricos passando com suas luzes multi coloridas e o som fazendo tremer as minhas carnes e arrepiar meus parcos cabelos.

                Vislumbro também o quartel da Polícia Militar, palco do trágico assassinato de sete soldados, pelo cangaceiro Lampião. Nesse momento, meus pensamentos parecem vivos: os trios e aqueles que os seguem ainda não morreram, cheirando a suor, perfume e cachaça... Os soldados mortos, lado a lado, no passeio da prefeitura. Que paradoxo! Que discrepância! Inda bem que a literatura me permite alçar voos proibidos por seres que não custa sonhar. 

                O que diriam aquelas personalidades de um passado adverso, caso vissem a lavagem de hoje? De certo, com a presença do prefeito e dos trios, Lampião teria cautela. Seu Abelardo, apegado à tradição, ficaria triste e decepcionado com a passagem dos trios elétricos. Lampião e seus cangaceiros, ao virem tantas luzes e ao ouvirem um som que balança o coração e estremece o esqueleto, fugiriam sem deixar marcas de sangue nessa terra boa, de gente inteligente, ordeira e trabalhadora.

                O fato é que a lavagem da igreja de Santo Antônio das Queimadas, ousadamente, corta o véu do tempo e persiste na sua existência. Capenga, mas anda. Anda porque o Santo quer. Anda porque o padre quer. Anda porque o povão gosta e não admite o seu desaparecimento.

                Em 2010, a lavagem da igreja de Santo Antônio completará 40 anos de insistência. As autoridades de Queimadas podem, se quiserem, organizar uma grande festa nos moldes que o povo gosta: religiosa e profana.

                Seria ótimo que, em 2010, durante os festejos comemorativos aos 40 anos da lavagem, descerrassem literalmente a cortina do tempo, do busto, ou de uma placa de bronze, homenageando o prefeito Abelardo Borges de Oliveira, emérito criador do evento, fazendo merecedora justiça.

* Escritor Queimadense

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Data 01/06/2011
De debora evellyn da silva oliveira
Assunto a altura do mar em campina grande

a algum mar em campina garnde

 
CRONICAS/POESIAS/PROSAS
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A vida, o tempo e a morte (Retrato de família)

 Antonio Monteiro

          Quando eu tinha seis anos, ao ouvir os constantes lamentos de minha mãe, fiquei sabendo que os meus irmãos mais velhos, os gêmeos: Joselito Monteiro dos Santos Silva e Josetita Monteiro dos Santos Silva, nascidos em Queimadas, em 1947, haviam falecidos ainda bebês.

          Naquela idade já tinha visto a caminho do cemitério de Santo Antonio, muitos cortejos fúnebres, no entanto jamais havia me perguntado sobre a morte ou sentido sua dor. Ao tomar conhecimento do falecimento dos meus irmãos gêmeos, a morte se fêz presente em meu consciente. Ela existia literalmente. Não tão somente para as famílias daqueles anônimos que passavam em caxões cor de lilás, mas para meus pais e, naquele instante, para mim. Foi um horror!

          Quão maravilhoso seria se nascessemos com 100 anos e, paulatinamente fossemos ficando mais jovem até atingirmos o útero materno e desaparecessemos com um lindo sorriso de criança, em meio a uma festa ornada por balões coloridos, doces, bolos, refrigerantes, músicas e muitas palmas. Dessa maneira ficaria marcada a nossa passagem triunfal por este mundão. Seria uma espécie velada de contrato de tempo de vida. Saberíamos que dentro daqueles cem anos enfrentaríamos de tudo. Turbulências que somente cada um de nós, com fé em Deus, inteligência e trabalho, superariamos. Nada de morte súbita. Nada de câncer, aidis, ebola...

          E... O tempo passou. Evidentemente que nunca mais esqueci da morte. Trabalhei com ela como policial. Trabalhei com ela diariamente no Ninã Rodrigues (Instituto de Medicina Legal) de Salvador, em 1973, vendo-a entrar com todas a idades e sair nas lágrimas escorridas nos rostos tristonhos e inconformados dos que aqui ficam cumprindo o seu tempo.

          Imaginar que eu ainda passaria pela dor de uma morte estava adormecido. Pensar na morte de um filho, impossível. Os filhos nascem e crescem para nos enterrar. Não o contrário. Filhos não morrem antes dos pais. Nossos pais, em nossos conceitos de filhos, morrem velhos. Bem velhos! Irmãos, o primogênito, também. Oportunizando estarrmos sempre juntos, relembrando os nossos pais que se foram muito mais velhos que pensavamos.

          Mas, em 1974 quando de fato havia esquecido da morte em família, ela veio e pegou meu pai de surpresa, aos 50 anos, num infarto em plena rua. Socorrido e levado ao Pronto Socorro, faleceu. Eu, que outrora trabalhara no I.M.L tive uma visão tão amarga ao constatar o seu corpo nú, aberto a mercê dos magarefes do Ninã. Os “magarefes” é por conta do que os meus olhos testemunharam durante meu serviço nos dois anos em que lá trabalhei.

          Entretanto, o tempo se encarrega de levar em suas águas as dores que implicam em permanecerem vivas dentro de cada um de nós. Ah, o tempo! Se não fosse o tempo nosso sofrimento seria constante. Ainda bem que existe o tempo, para fazer sorrir, para fazer chorar, para relembrar, para esquecer.

          Nem bem me acostumara a súbita ausência de meu pai, minha mãe, aos 57 anos, sem nos dar um pequeno sinal, amanhecera em seu leito conjugal, morta. Havia apenas 45 dias do falecimento de meu pai. Dor em cima de dor.

          Novamente, o tempo às vezes caridoso e às vezes temeroso, deu-me uma trégua. Exatamente 32 anos sem a morte me atropelar.

          Mas em 2006, no Rio de Janeiro, aos 54 anos de idade, o homem que nascera em Queimadas, pelas mãos de dona Sinforosa, doente, e lhe foi construidos três caxões a espera de sua eminente morte, quando criança, faleceu. Para mim, embora meu irmão tivesse driblado a morte durante muito tempo, foi embora cedo.

          Nenem se foi deixando uma imensa saudade e minha consciência pesada; pois, abortava sempre a possibilidade de ir vê-lo, sob alegações, que atualmente, as vejo fúteis.

          Porém, calculando o tempo que o tempo me dera entre uma morte e outra, esperaria (é inevitável) por ela, mais 32 anos.

          Qual nada! Dessa vez o tempo foi implacável comigo. E, no dia três de junho de 2007, perdí um filho. Logo um filho. Eu nunca queria perder um filho para a morte, tão estupidamente, antes de ela me levar.

          Alex, um jovem advogado de 30 anos, casado, duas fillhas (7 e 10 anos), por um erro médico que a terra sempre encobre, dormiu quinze dias na UTI e no décimo sexto dia faleceu. Junto com ele, de certo modo, morremos um pouco.

          Ah, meu Deus! Eu queria sem nenhuma hipocrisia ter ido em seu lugar. Como dizem por aí: eu ja tinha comido muita farinha. Com 59 anos estava no ponto. Poderia me dar o luxo de dizer que estava no ponto, pronto. Em meu currículo: 34 anos de trabalho como policial. Casa, carro, bens. Aposentadoria e um curso superior. Tudo que alguém de origem pobre espera da vida. Já havia plantado umas árvores e escrito uns livros. A vida, que nem sempre é bela, ao meu ver, tinha sorrido para mim nesses 59 anos. Então porque meu filho e não eu?

          Como cristão devo me acostumar à morte. Como ser humano, não consigo. Este é o meu retrato de família. Não acho um retrato triste. É a vida, o tempo e a morte. Hipocrisia imaginar que a morte não existe. Que ela não nos rodeia todo dia. Que ela não virá um dia.

          Em nossa vaidade, torcemos para que ela demore. Que nos esqueça por longos anos. Somente vindo nos buscar aos cem anos, sob muito protesto.

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Um livro no além

                Estamos em setembro de 2005 e tenho nove livros, dos quais quatro publicados. Mas não tenho um livro nas livrarias nem conhecido regionalmente. Tampouco um livro conhecido no círculo nacional ou entre os melhores da Revista Veja.                                                    

                Pasmem! Eu tenho um livro no além. Explico: durante a finalização de minha mais recente obra de contos e crônicas — Retratos da vida — pela ABG/Gráfica e Editora, meu sobrinho de coração, Carlos Eduardo (Dudu), sem explicação, suicidou-se aos 24 anos de idade. Foi grande a emoção, e a saudade dele nos consome até hoje. Era um rapaz muito alegre e sua atitude contra a própria vida, nos causou surpresa e indignação. Resolvi então, fazer para ele uma justa homena­gem póstuma.

                O livro foi lançado na Casa de Cultura Ivan Marrocos, às 20 horas, do dia 09 setembro de 2004 e a homenagem a Dudu causou uma grande comoção entre parentes e amigos.

                No dia seguinte, por volta das 16 horas, no momento em que estava deitado, tranquilamente relia o livro, ouvi uma voz muito conhecida que me falou:

                — Tio, me dê um livro.

                Ergui a cabeça e Dudu estava em minha frente, com a mão direita estendida em minha direção. Naquele instante, não senti medo, nem tensão menor ou maior. Ao contrário, o clima era de paz, de muita paz.

                Eu só podia está sonhando. Mas lembro-me muito bem de não ter dormido. Então, como poderia estar sonhando?

                Levantei-me e fui até a caixa que estava sobre o sofá do quarto, retirei um exemplar, autografei e o entreguei. Ele agradeceu, deu-me as costas e saiu. Fiquei estático, pensativo, numa dúvida terrível. Afinal, eu estava sonhando ou Dudu estivera em meu quarto e levara o meu livro consigo?

                Recontei os livros e dei por falta de um. Pensei: será que um dos meus filhos pegou um exemplar para presentear um amigo? Ou foram minhas netas? Às vezes, elas vêm com um livro pedindo para dar um autógrafo para um coleguinha da escola; mas todos negaram participação no exemplar desaparecido.

                O que me consola apesar de escrever para o mundo e não tão somente para minha região, e, também não fazer o sucesso que sonho, é ser diferente dos outros escritores.Acreditem leitores e   confrades: tenho um livro sendo lido por muitas almas no além.

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Data 29/05/2009
De ADRIANA CERQUEIRA
Assunto JORNALISMO

Olá...
Meu nome é Adriana cerqueira,jornalista,formada pela UFBA.
Adoro literatura Espirita e gostaria muito de ler o seu livro.
Onde posso encontra-lo?
Um grande abraço!!!

 
CRONICAS/POESIAS/PROSAS
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Beethoven e o Homo Sapiens

Por Antonio Monteiro

                 Nem bem os primeiros raios de sol mergulhavam eroticamente nas águas do Dique do Tororó e o Homo Sapiens e Beethoven já corriam acelerados para manterem os músculos e a vida.

                Embora, na minha incompreensão teimosa, de que o aceleramento do corpo não trás a longevidade, face à vida das lentas tartarugas, a moda nesse século é cultivar o corpo, torná-lo perfeito, para que a suposta imperfeição torne-o saudável.

                E, assim, numa música silenciosa, outrora ouvida por Beethoven, Homo e animal derramam carboidratos, molhando cabeça, tronco, membros e calçadas.

                Visivelmente há um grande elo entre os dois. Poder-se-ia afirmar que ambos correm entrelaçados por correntes de ferro e de sentimento, qual o amor revelado no dia-a-dia; dos cuidados às vezes paternais, em que a simbiosidade do zelo jamais os separam.

                A “horta de beterrabas”, não indicava a Beethoven nenhuma nobreza, porém, esse Beethoven é nobre por natureza. E, a sua melodia ouvida pela comunidade assegura às noites e a tranqüilidade do sono.

                Creio que o Beethoven do Homo Sapiens, tenha a mesma idade infantil do começo da obra de Beethoven, que um dia mais tarde a surdez roubou-lhe o prazer de viajar em suas canções.

                A um bípede é dado regularmente a oportunidade de ver e ouvir as canções das águas do Dique do Tororó; de vislumbrar as cores das flores que a orlam; de ultrapassar bípedes e quadrúpedes em sua calçada. Porém, para nosso Beethoven, quase tudo é cerceado, com exceção do carinho exacerbado ao primeiro encontro matinal e os dias trespassados pela invisível seta da amizade entre um e outro.

                Alguns quadrúpedes, entre eles Beethoven, propositalmente ou indevidamente, introduzidos nas vidas de determinadas pessoas, transformam-nas em pessoas mais felizes.

                O Beethoven, esse Beethoven, que é manso durante o dia e à noite é um grande segurança, transformou literalmente a vida do Homo Sapiens num ser humano mais feliz. Ah, e como ele é feliz com Beethoven!

 * Dedico esta crônica ao meu amigo, Subtenente da PM-BA, Andrade e ao seu cão, Beethoven.

 Salvador, 18 de Março de 2009.

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 Um tostão contra um milhão

                A bicicleta velha, de guidão torto e pneus carecas, ainda suportava o homem destemido de estatura média, moreno claro, de olhos castanhos, penetrantes e luminosos, que depois de ver sua cidade perecendo, tomara uma importante decisão: ser eleito Prefeito e fazer a diferença. No entanto, era apenas um funcionário público, assalariado, sem dinheiro no banco ou embaixo do colchão. Enfrentaria uma eleição que o seu adversário possuía as escâncaras, um milhão.

                O povo nunca vira em Queimadas, dois gladiadores políticos de portes completamente diferentes. De um lado, a humildade, a bondade, a honestidade, a integridade, a paciência, a solidariedade, a inteligência, e, o mais importante, a fé em Deus. Do lado oposto, a imponência, a força bruta, a intolerância, muita insensatez, muita improbidade, muita ignorância. Para esse protótipo de Golias, o mais importante era a sua imensurável fé no dinheiro.  

                Por toda Queimadas, em todos os cantos, até mesmo entre as “meninas de vida fácil” da Rua da Bomba, comentava-se que aquela eleição na década de cinquenta seria o confronto entre o bem e o mal. Entre Deus e o diabo. Entre o rico e o pobre. Entre o forte e o fraco...

                Na feira, segundo a cantoria do literato de cordel, “a corda se quebraria do lado mais fraco.” Porém, nos olhos do fraco expressava a doação, a vida próspera e a esperança. Seus sentimentos, seus valores espirituais e morais, conduzidos por suas palavras amáveis e compreensivas, sem distinção de raça, cor, credo ou poder aquisitivo lhes dava credibilidade e ânimo para continuar na luta. Embora fosse de verdade uma competição de um tostão contra um milhão.

                Ameaças expostas, em cardápios variados não lhes faltava: na porta de casa, via jagunço, nas praças, ou nas vielas. Seguro de si, o homem do tostão nunca teve medo, nem caminhou triste, nem desolado, nem arredou um passo e nem uma palavra em sua modesta campanha. Enquanto o dono do milhão realizava seus comícios poucos convincentes em cima de um caminhão, o homem da bicicleta desbravava a cidade e a caatinga montado em jeque ou na velha bicicleta. Às duras penas, conduzia seus sonhos, suas idéias e os transmitia ao povo.

                O sol nascia e lá ia o tostão, atravessando rios, igarapés e poças d’aguas. Sob calor ameno ou causticante, chuva densa ou passageira, fazia pausadas pousadas em casas de finos tratos, em casebres de barro e cobertura de palha ou zinco, roças e fazendas. Na Estação de trem, em vivendas, no movimento da feira e dos feirantes, nos passamentos em direção ao Cemitério...

                O dono do mundo, da razão, e do milhão ria. Desdenhava do seu Davi, da sua pretensão e locomoção. Disposto o homem da bicicleta velha e barulhenta, marcava presença nas casas de pau a pique. Com o rosto bronzeado do sol sertanejo das suas incansáveis andanças; sofria a dor do seu semelhante, marejando seus olhos angelicais.

                O traçado corporal marcado pelo sorriso brilhante, de criança contente, enleava coração por coração, conquistando confiança, amizade e voto. Entrementes o que vale mesmo no dia da apuração é a maioria dos votos. Poucos votos significam eleição perdida. Muitos votos eleição vencida. Mas que vença a vontade do povo. Naquela época, o povo havia se conscientizado da sua vontade. Já sabia quem merecia ganhar aquela eleição para Prefeito de Queimadas.

                Afinal, chegou o dia crucial: a senhora Belinha, a esposa meiga do Tostão, transformou-se em rainha – Primeira Dama do seu torrão.

                Perplexo com a vitória do candidato Jaime Salgado de Oliveira, o Senhor Isidoro Mendonça, o pseudo Gigante; resolveu na noite após a eleição, para chamar a atenção da população; dar um grande baile regado à cerveja e churrasco, para tapar com uma peneira sua grande frustração.

                Portanto, o fato mais importante na política partidária de Queimadas, que ficou marcado como uma tatuagem na memória dos queimadenses, foi essa conquista inusitada em 1959, aos pés de Santo Antônio que era a fé e devoção do povão e do Senhor Tostão.

                                                         Salvador, (Apto. de Cristina Andrade, minha cunhada), 19 de abril de 2009.

Antônio Monteiro - Autor

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Data 11/05/2011
De Bruno Oliveira
Assunto ESSE É O MEU AVÔ!!!!!!!!!!!

Esse guerreiro, descrito da melhor maneira possível, e que não está mais entre nós, é o meu avô.
Obrigado pela homenagem!

 
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  Minha Mãe Nizeth Andrade
                                                                                    

                                                                                        Uma mulher batalhadora e humilde

Singela e de rara beleza

Teu sorriso angelical de leveza

Ao raiar do dia transcende o sol

À noite em sibemol à prata da lua.

Mãe consoladora. Imperatriz da bondade.

Mãe Nizeth, mãe leoa. Apaixonada trigueza.

Criou as crias com tanta sagacidade

Resultante a Rui, Cristina e Mônica

Rios transbordantes de lânguida pureza.

AH, MINHA MÃE NIZETH ANDRADE!

Gostaria de ter o poder de parar o tempo

Hoje, agora, já... Nesses seus 75 anos,

                                                                                            Com muita força ágape divinal

Transformá-la em uma Santa,

Para que todo mundo a ame

E, do seu altar com sua sagrada manta

Derrame gotas e gotas de felicidade em ecos

Sobre os seus amados filhos e netos:

ÉRICA, MARCEL E FELIPINHO.

AH, MINHA MÃE NIZETH ANDRADE!

Fique aqui coladinha em nossos corações

Nunca vá embora. Deixe o tempo passar em vão

Deixando, assim, passar os anos sem par,

                                                                                    Por nossos olhos, tão-somente emoção

                                                                                Para ouvirmos sempre a sua graciosa voz

Numa linda comovente e sempre, canção de ninar.

*Homenagem à senhora NIZETH ANDRADE, no DIA DAS MÃES.

Salvador-BA, 10 de maio de 2009.

Antônio Monteiro - Genro

 

                                                                                                            

CRONICAS/POESIAS/PROSAS
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O cachorro banguelo de Queimadas 

                 Em Queimadas, na Avenida São José, num quintal vizinho à casa de seu Tonico, um cachorro vira-lata ladrava sem parar. Dia e noite. E os seus latidos perturbavam toda a vizinhança e transeuntes, até no ponto de ônibus.

                Doente dos nervos, seu Tonico, ranzinza por natureza, prometia à sua esposa um dia qualquer invadir o quintal do vizinho e matar o animal.

                O dono do cão recebia queixas e mais queixas do incômodo que o animal causava na rua, mas as queixas só serviam de gozação e as pessoas saíam da porta de seu Bernardino cheias de cólera, com sua falta de educação e sensibilidade aos apelos alheios.

                Seu Tonico, além dos nervos, sofria de insônia. O cachorro não o deixava dormir, nem de dia, nem de noite. Aos setenta anos, andava mal das pernas, sem força suficiente para atropelar seu Bernardino peito-a-peito e dar-lhe uma boa sova, estendendo-a ao maldito cachorro.

                Um dia, não se sabe como, Tupi quebrou a coleira, saiu estabanado e adentrou justamente a casa de seu maior inimigo, rosnando, latindo, cheirando as coisas. Como se fosse de propósito urinou bem na quina do sofá, atingindo as pernas de seu Tonico com os respingos da urina quente.

                Ah! O idoso se enfureceu! Pegou a mão de pilão e deu com vontade na cabeça do cachorro. O animal latiu tenebroso e caiu quieto, botando sangue pelos ouvidos. O bicho ainda estava vivo. Parecia ter desmaiado se é que cachorro desmaia.

                Seu Tonico aproveitou aquela quietude, pegou uma corda, amarrou as patas do indefeso animal, imobilizando-o completamente. Não satisfeito, se apossou de um arame, dividiu em dois pedaços, abriu a boca de tupi, passou o arame entres os dentes, separando uma mandíbula da outra, envolvendo cada ponta do arame num pé e noutro de uma cadeira.

                Todo esse maléfico trabalho, devidamente realizado às vistas de Dona Maricota, sua esposa, que imparcial, aprovava com mérito a atitude débil do marido. Dona Maricota era uma das vítimas de Tupi e não tinha motivos para defendê-lo.

                O animal, fortemente amarrado, com a boca escancarada à força, tentou se mover e não conseguiu. Grunhiu com a língua caída, derramando baba e sangue.

                Seu Tonico, com os olhos arregalados e a boca espumando de raiva, apareceu na sala com um imenso alicate e num gesto insano começou a arrancar dente por dente de Tupi. O sangue espirrava sobre o algoz, para todos os cantos e se espalhava pelo piso da sala, escorrendo para a calçada, umedecendo de vermelho a rua de chão seco.

                O ódio havia tomado conta do coração daquele homem, pois enquanto ele não arrancou o último dente do cachorro não sossegou. Tupi, que a tanta gente havia perturbado com seus latidos incessantes, talvez por desleixo do seu proprietário passava fome, ou lhe faltava água para suprir o organismo e se acalmar. Agora não passava de um cachorro banguelo.

                Não sei que santo protegeu aquele animal, porque soltas todas as amarras ele ainda estava vivo e saiu correndo, cambaleando, desesperado, tentando emitir algum som, com a boca totalmente ensangüentada.

                Ventos novos sopraram entre as nuvens, passearam à vontade sobre a vida, demarcando o tempo. Contudo, até hoje, seu Bernardino não descobriu quem arrancou os dentes do seu cachorro. Porque se soubesse mataria o infame.

                Após esse acontecimento macabro, o silêncio voltou a pairar sobre a Rua São José. As pessoas passaram a ouvir apenas os rumores corriqueiros do dia-a-dia: o canto das lavadeiras no rio Itapicuru, o canto dos passarinhos, o amolado r de facas, o vendedor de peixes, o vendedor de frutas, o vendedor de pães, o vendedor de quebra-queixos e as carroças transportando quinquilharias.

                Tupi, por sua extrema falta de dentes, ficou falado na rua. O comunicador Jairo de Almeida Alves, da Rádio Comunitária de Queimadas - FM, noticiou o fato. Os comentários chegaram à imprensa escrita, em Salvador. A importância atribuída ao caso, pelos jornais, tornou Tupi famoso também no noticiário da TV Bahia, como o único cachorro banguelo de Queimadas e quiçá do Brasil.

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Data 16/05/2009
De Syene Nastech - Espanta Gado, Queimadas
Assunto Sobre o escritor Antonio Monteiro

Ouço falar muito sobre Antonio Monteiro. Inclusive ele distribuiu quase mil livros infantis por aqui, de graça. Gostaria de conhecê-lo. Coloque uma foto dele por favor, seu Aroldo.

Data 10/05/2009
De Ana Maria Gunther, Alemanha
Assunto Cachorro Banguelo de Queimadas

Sou uma queimadense de 55 anos de idade que reside na Alemanha, há 25 anos. Este ano estive na minha cidade e em Salvador, onde a chuva caia torrencialmente. Gostei muito do texto " O cachorro banguelo de Queimadas e de minha querida Lili. Realmente, depois de Nonato Marques, Antonio Monteiro é a expressã mais nova d literatura em Queimadas. Tenho alguns livros do autor. Parabéns Haroldo por aceitar este nosso literato.

Data 14/05/2009
De haquilles
Assunto Re:Cachorro Banguelo de Queimadas

Para quem não sabe Ana, que visitou Queimadas por muitos anos nas férias escolares à minha época, é sobrinha de Abelardo Bordes. è um prazer te-la entre nós.

Data 10/05/2009
De Simone Alves - Recife - PE
Assunto Maravilhoso este conto do cachorro

É maravilhoso esse conto do cachorro banguelo da cidade de Queimadas, Bahia. Este fato acontceu mesmo? Ou é simplesmente da cabecinha do autor? Onde posso encontrar os seus livros? Por este conto ele deve escrever divinamente.
Abraços, ao Haroldo.
Simone Alves, Advogada - Encruzilhada, Recife, PE.

 
CRONICAS/POESIAS/PROSAS
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Por Antonio Monteiro da Silva

MINHA QUERIDA LILI

                 “Quando Liliana saiu de minha vida, eu nunca mais pude olhar para nenhuma outra ‘tchutchuca’, por mais linda e maravilhosa que fosse. Eu pensei até que não suportaria sobreviver à sua ausência, mas, enfim, tudo passou.

                Lili, como carinhosamente eu a chamava, entrou em minha vida no meu pior momento. Eu havia sido atropelado na porta de casa e estava em pandarecos: um olho inchado, uma perna quebrada, e me arrastando para me alimentar; sofrendo para fazer minhas necessidades. Mas a sua companhia me curou rapidamente.

                Não sei quem a apresentou em casa, se o meu patrão ou a filha dele. O fato é que, quando aqueles olhos azuis, brilhantes como duas bolas de gudes, se cruzaram com os meus, eu me apaixonei perdidamente. Creio que o sentimento foi recíproco, pois logo estávamos juntinhos no banco do jardim, trocando carinhos; ela completamente compadecida de minha desgraça e eu completamente embevecido de amor.

                Juntamos nossas vidas de tal forma que pareciam uma só. Vivíamos no mundo um belíssimo par, e nossas estripulias não tinham lugar comum: eram no sofá, no tapete, na cama, no chão da cozinha, no quintal, na laje da casa... Era uma vida ma-ra-vi-lho-sa! Ah, como eu era feliz!

                Algum tempo depois, ela começou a apresentar os primeiros sinais de gravidez. Não me contive de alegria no dia em que ela me confirmou, com aquela voz mansa e aqueles olhos azuis brilhantes de felicidade:

                – Eu estou grávida, meu amor.

                Eu pulei, pulei, corri feito louco pela casa, gritando ‘Eu vou ser pai! Eu vou ser pai!’

                Tempos depois, meu patrão, um homem consciente e bondoso, compreendeu nossos óbices e nos levou ao médico. Minha Lili morria de vergonha de se expor àquele desconhecido e tentou duas vezes fugir do consultório, mas eu e o meu patrão a convencemos de que permanecesse no mesmo lugar e fizesse os exames. ‘A primeira gravidez é assim mesmo – pensei – deixa a futura mamãe sempre nervosa, sempre preocupada.’

                – São gêmeos – disse o médico – ela vai ter gêmeos – e cumprimentou meu patrão.

                Ao ver aquela conversa, pensei como os meus botões: ‘Por. quê? Eu sou o pai! Só porque eu sou baixinho já me renega a paternidade?’

                Ainda bem que meu patrão ralhou com ele, dizendo:

                – O pai é esse aqui – batendo em minhas costas.

                Eu era, naquele instante, o ser vivente mais feliz sobre a terra.

                Num domingo de madrugada, minha doce Lili sentiu as primeiras dores: chorava, gritava – um escândalo! Acordou toda a vizinhança. E toda a vizinhança se envolveu nesse escândalo porque também gritava de todos os cantos. Um pandemônio! Nem precisei ir bater à porta do quarto do meu patrão, ele já estava de pé e vinha em nossa direção com uma cara de bravo, mas logo se desarmou quando percebeu a aflição de Lili. Pegou-a nos braços e, às pressas, corremos ao hospital. Eu estava no banco de trás do carro com a minha ‘tchutchuquinha’ em meus braços, partilhando cada gota de seu sofrimento.

                De casa ao hospital, à velocidade de Senna, o tempo permaneceu como se estivesse parado. Só as dores de Lili avançavam. Enfim o hospital, o corre-corre dos paramédicos, a sala de parto. Lili, alucinada, com suas unhas perfeitas, rasgava o avental branco do médico, se lhes seguravam as pernas. ‘Força’, dizia o médico, e nada de o meu filho apontar a cabeça na janela do mundo. Por mais força que a Lili fizesse, o nosso moleque parecia não querer vir ao mundo por aquela janela. Lili já estava ficando roxa, perdendo as forças, quando o médico alertou:

                – Incrível, mas ela não tem passagem... Temos de fazer uma operação cesariana.

                Mas que diacho era aquilo? Cesariana? Desde quando na minha família alguma fêmea precisou de cesariana? E quando o médico informou que já iria aplicar uma anestesia para que ela dormisse, eu tive medo. Lili, então, abriu um berreiro, acordando outras mães, outros filhos, até os pais e os filhos dos nossos inimigos que ali estavam internados.

                Eu tinha consciência de que aquela Santa Casa não era um hospital público; que a minha Lili não estava sendo assistida por uma equipe do SUS; mas, mesmo não sendo um hospital público, porque nesse mundo não há um hospital público para nossa família, o médico, desprovido de quaisquer sentimentos à vida alheia, criticando o escândalo de minha Lili, comentou:

                – Naquela hora, você não fez esse escândalo. Até gostou.

                Meu patrão asseverou rindo, mas murchou o riso ao dar com os meus olhos de indignação. Que falta de respeito!

                Em seguida, Lili foi anestesiada e seu ventre aberto. Os meus bebês vieram ao mundo de urna forma bem diferente da tradicional, por uma janela que não estava aberta. Pela janela aberta por César.

                Logo após, Lili mergulhou em sono profundo, mas mantinha os olhos abertos, uma característica típica da nossa família. Nós só fechamos os olhos quando dormimos naturalmente ou quando morremos.

                Dias depois, éramos a família mais feliz do bairro, mas, como somos muito sensíveis, não foi difícil perceber a insatisfação de nossa patroa com nossa presença em casa. Ela dizia que a casa estava cheia e que nossos bebês faziam cocô em qualquer lugar. Coisas assim, de gente que não gosta da gente.

                Sobre o parto de minha Lili, meu patrão me alertou de que minha amada nunca mais poderia engravidar, pois o médico lhe havia ligado as trompas. O jeito foi confortá-la. Fazê-la entender que o absoluto existe, que, se acreditarmos na existência de Fiturgo, alcançaremos o estado ideal.

                E assim, entre o inferno e o céu, íamos sobrevivendo, até o dia em que a minha Lili, inesperadamente, voltou a ter as mesmas complicações da primeira gravidez. Junto às complicações, a sua barriga crescia. E quando via sua grande barriga, meu patrão comentava, em tom de elogio:

                – Como Lili está gorda! – alegando, sem querer, a impossibilidade de uma nova gravidez.

                Sim, parecia impossível pensar numa gravidez, mas reconheço ‘que a vida humana não é um caminho linear em direção ao progresso, ao êxito, ao crescimento. Pelo contrário, é marcada por situações adversas, como a doença, a dor, a luta pela sobrevivência, o fracasso, a velhice, a morte...’. E em quase nada difere a concepção do existencialismo de nossas metas de sobrevivência.

                Nós também sofremos, muitas vezes optamos por um sofrer mudo, só perceptível a olho nu entre as pessoas que nos amam. Para nós basta um olhar, um afago ou uma porção de leite morno. Pois nem uma coisa nem outra faz mal a ser nenhum.

                Minha Lili sofria calada, ocultando o que para nós era apenas uma desconfiança: outra gravidez e de risco, inconcebível do ponto de vista técnico, pois o médico já lhe tinha retirado as trompas.

                Certa manhã, minha amada acordou cheia de dores nas cadeiras, na barriga, nas pernas, e seu estado foi-se agravando durante o dia, a ponto de ela não mais poder se locomover da cama. Meu patrão me acudiu prontamente. Delicadamente, ergueu minha amada em seus braços e novamente corremos ao hospital. Na rua, outra vez o tempo parado, o trânsito paralisado, o povo correndo para lá e para cá, e a vida se esvaindo dentro de minha Lili. No hospital o corre-corre dos paramédicos, a anestesia, o ventre aberto, meu filho morto e o último suspiro de minha Liliana. Foi-se o meu grande amor. Depois, andei pela vida como um vira-lata, comendo lixo, dormindo no relento. Jurei sobre a sepultura de minha Lili que nunca mais, jamais, eu olharia para outra... Han, han, han... Desculpe o meu choro, somente aqueles que conhecem o verdadeiro amor reconhecem o valor dos meus sentimentos. Deus, ó meu Deus, Deus dos miseráveis, por que levastes a minha Lili? Por quê? Por quê?... Desculpe se choro, ainda está tão recente... Por quê, meu Deus?... Por que ela não nasceu fênix? Buáaa...”

                Caríssimo leitor: na oportunidade, peço-lhe desculpas pelo atrevimento de intervir na narrativa de Beethoven. Ele ainda está muito frágil com tudo o que lhe ocorreu. A parti de agora, faço minhas as suas palavras, testemunhas oculares de seu drama. Antes, porém, quero explicar algo: apesar de sua insistência em querer me chamar de patrão, na verdade eu nunca os explorei. Em nossa casa, eles não faziam parte do quarto elemento de família de Aristóteles. Pelo contrário, os dois eram como se fossem meus filhos, e seus filhos tratados como se fossem meus netos. Como parentes. Assim, por não termos uma empregada doméstica, cada um tem de realizar suas tarefas de casa, como vigiar a casa contra a entrada de ladrões, animar os dias negros de minha vida e rolar comigo sobre o tapete persa da sala de estar. Mas empregados, empregados mesmos, não eram! Até porque eu não os remunerava. Digamos que havia uma certa reciprocidade: eu os alimentava, dava teto, amor e carinho e eles nos guardavam. Se colocarmos essa permuta numa balança de precisão, garanto que eu sairia perdendo, pois o casal Beethoven e Lili, e seus filhos, Da Vinci e Galileu, não passavam de autênticos preguiçosos, que viviam a maior parte do tempo deitados em berço esplêndido. Só Demiurgo poderia dar um jeito naquela família de ociosos, porque eu já havia deixado rolar. Entretanto, minha patroa não conseguia mais tolerar tanta preguiça e tanta falta de higiene.

                O Beethoven, esse Beethoven que passou mal e me passou a palavra, é um aproveitador consciente do grande amor que eu nutro por ele. É mais ou menos um Epicuro: fidalgo, refinado, formoso, vistoso, olhos verdes, um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. Não foi ao léu que Liliana se apaixonou por ele à primeira vista.

                Dadas as minhas explicações, vamos ao assunto-tema desta história: a gravidez de Liliana.

                Como ficou dito por Beethoven, Lili, já na primeira gestação, não tinha condições de ter um parto normal. Em razão disso, passara por uma cesariana com ligação das trompas, e não sei como engravidou sem poder. E o pior era que ninguém, nem mesmo ela, sabia que estava grávida, por isso o quadro se agravou tanto, que ela e o bebê, ambos debilitados, embora contassem com toda a assistência médica de primeira qualidade, faleceram em meio à cirurgia, para minha tristeza e dor. Meu pesar ainda hoje é muito grande. Eu, sim, não me esqueço um só momento de Lili. Eu, sim, a amava muito.

                Mas o Beethoven... Neste momento, caro leitor, completamente alheio à nossa conversa, o gato, que até pouco tempo se desmanchava em lágrimas, deu uma rosnada, passou a longa calda pelo meu rosto, e saltou de meu colo, indo ter com uma linda gata angorá de nome Cybele, que já o paquerava desde a época em que estava acasalado. Pode uma coisa dessas? O mundo está mesmo mudado! Os gatos, heim? Esses gatos de hoje, heim?

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Por Antonio Monteiro da Silva 

Lágrimas de poeta

             A emoção fluiu solta de ambas as partes. Eu por afinal conhecer pessoalmente um dos mais conceituados poetas românticos da Bahia. Ele por ter ali um de seus fãs. O que me proporcionou um dos momentos raros de emoções fortes já vividas por mim nestes últimos anos. A minha felicidade maior foi ter a certeza de que ele estava me agradecendo através do olhar, de suas lágrimas, um simples artigo onde eu expressava a minha ansiedade em conhecer um poeta raro.

            Enquanto as lágrimas vertiam dos nossos olhos, a comunicação se fazia entender apenas por um aperto de mãos, por uma expressão facial. As palavras não foram necessárias para expressarmos o que sentíamos naquele momento mágico de um encontro de poetas. A linguagem vinha da alma, a voz emanava do coração e o sentimento, este se fazia compreender através das emoções.

            Foi assim o meu primeiro encontro com o mestre dos poetas, Jose Ailton Ferreira (Bahia). Estático em sua poltrona, a vagar seus olhos na imagem da televisão. Eu, sentado ao seu lado, como imaginara antes que deveria acontecer. Nosso colóquio fluía através de nossas almas, como uma espécie de comunicação telepática.

            Ele quieto, mas sempre atento a tudo em sua volta. Eu, transparecendo a todos que conosco regozijavam da sua companhia, deixava claro que ali se iniciava uma grande amizade. Em decorrência de seu estado físico, sem poder falar verbalmente, o que nos unia naquele instante era a nossa conversa silenciosa, espiritual. Ali, naquele momento, tive a certeza de que os poetas precisam mais de suas almas para se comunicar que de seus versos para expressar seus sentimentos.

            Ah, Bahia! O “Bahia”, hoje, é assim. Ele não consegue se comunicar com as palavras faladas. Sua alma fala por ele. Suas lágrimas ditam sua poesia. Sua expressão facial fala de seus sentimentos.

            As minhas lágrimas de poeta que, atrevidamente, fluíram pela minha face, foram de felicidade por ter afinal conhecido um grande poeta que se imortalizará através de seu livro, o qual com muita honra prefaciei e, com certeza, estarei na luta para que em breve possamos editá-lo.

            Ao ser incumbido dessa missão, a recebi como um presente um presente que sua esposa Chiquinha e sua filha Carolina me deram como prêmio que jamais imaginara receber. Não sei se mereci, mas de uma coisa tenho certeza, fez-me sentir muito feliz.

 P.S.: No dia 21 de setembro de 2006, quando inicia a primavera, o poeta baiano, nunca reconhecido nacionalmente, faleceu, deixando a cultura de Almadina (sua terra natal), na Bahia e do Brasil, um pouco vazia.

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Carissimo Haquiles, gostartia que você jogasse no seu Blog a pergunta abaixo:
    

 Sou escritor desde sempre, com 22 obras, inclusive ja premiado. E um livro publicado na 20ª BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SAO PAULO, EM 2008.
Comecei a escrever um novo livro que preciso de informações de várias pessoas conceituadas e inteligentes como você. O assunto e o seguinte:


DA BíBLIA SAGRADA: "LUCAS 16, VERSíCULO 18."(algumas afirmações de Jesus Cristo:)
"Se um homem se divorciar e se casar com outra mulher, COMETE ADULTÉRIO. E quem se casar com a mulher divorciada tambem comete adulério."

PERGUNTO: O que você acha? Opine em no máximo 20 linhas. Basei-se, inclusive, na Bíblia. Esteja a vontade para pesquisar, porém sua própria opinião será bem-vinda. Brevemente será publicada num livro nacionalmente divulgado por uma grande editora. Date e coloque a cidade e seu nome se desejar. Nao e obrigatório você se identificar. Contudo, as suas iniciais do nome e sobrenome eu aceito de bom grado.
Grato,
Antonio Monteiro da Silva - Queimadas - Bahia
 

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Data 07/05/2011
De ladergd
Assunto poemas

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Data 29/11/2010
De jovelina
Assunto parabéns

Parabéns por ter criado

Data 30/08/2010
De Marla Andrade
Assunto A seca

A SECA

Marla Andrade

A seca domina a terra, a vida, as pessoas. Lugar de escassez, de pouco envolvimento e muita fé. Foi nessa terra, no sertão da Paraíba que nasceu Zé, como tantos outros. Desde criança já era diferente dos oito irmãos. Calado, ficava muito tempo parado, no mundo da lua, observando as pessoas. Quando lhe mandavam fazer algo, não demorava muito, lá estava ele com o olhar vidrado, esquecia do mundo, da vida, de tudo. Era um mergulho em um lugar só seu, íntimo, uma outra vida, sem a terra rachada pela seca, a falta de água, a pouca plantação, a vaquinha, os bodes, aquele ar modorrento, abafado, aquela vida crua. Zé entrava em um devaneio longo e profundo, passava por lugares nunca vistos, por terras nunca habitadas, por animais fantásticos, tudo fruto de sua imaginação delirante. Daí surgiu seu apelido, Zé Aluado.
Ele era o quarto filho, por isso nem recebera a atenção dos primeiros, e nem dos últimos. Era um garoto magro, mais alto do que o normal para sua idade e por isso mesmo parecia ainda mais abobalhado do que já era. Sua grande mania era fazer muitas perguntas, ficava horas parado, pensando e de repente soltava uma pergunta. Geralmente seus pais não sabiam responder, eram perguntas “sem cabimento” diziam eles, “vá pensar im algo que preste” respondiam sem preâmbulos.
A família nunca tinha freqüentado a escola, assim como praticamente todos os vizinhos, eram pessoas humildes e que entendiam do tempo, da terra e dos animais a partir de sua própria vivência, não tinham como responder a tantas perguntas “sem sentido”. Zé indagava os porquês da vida, dos animais, da terra, da água. Enquanto as pessoas ao seu redor acordavam cedo e iam direto para a lida, pois o trabalho é quem dá continuidade à vida nordestina, Zé ficava a refletir a pedir explicações para tudo que via e vivia.
A mãe dizia já estar cansada desses devaneios:
_ “num presta nem pra tomá conta do irmão mais novo, se passa um bode na porta de casa, pronto! Cabô-se tudo”, o resto do mundo ficava esquecido. ”Im qui diabos ele pensa só Deus sabe!”.
Por tudo isso a mãe ficou feliz quando Zé Aluado completou sete anos e começou a ir ajudar o pai na roça, pegando na enxada, mas seu pai dizia o tempo todo:
– "Esse mininu num dá pra capiná, vive im ôtro mundo, quando eu oio já tá cum a cabeça poiada na inxada, pensano na morte da bizerra! Num trabaia nada, as semente serve pra tudo menos pra prantá, e a pouca água que nóis tem escorre das mão como terra seca."
Nem os meninos das roças vizinhas entendiam Zé Aluado, não deixavam ele participar das brincadeiras, ninguém queria ele por perto. Ele era jogado de um lado pro outro, pois tinha pouca ou nenhuma serventia onde fosse. Os pais batiam nele como uma solução para tirá-lo daquele torpor. Até que um dia, a mãe não agüentando mais, resolveu falar com o padre, pois o que o homem não resolve, só Deus pra resolver. O padre achou então que Zé aluado podia passar uns tempos na Igreja, ajudando nos preparativos da missa, assim poderia ter alguma utilidade. Zé ficou naquele dia mesmo morando na Igreja, chorou muito, mas sua mãe lhe disse:
– "Fio, qui tu tá mió, im casa tu num presta pra nada."
Essa foi sua despedida, sem remorso, nem tristeza, pois bezerro doente tem que ser separado do rebanho para não estragar o resto.
O tempo passou, e Zé Aluado teve contato com algo que ele nem imaginava que existisse: os livros. Aprendeu a ler e escrever, o mundo se abriu para ele como uma gaiola para um passarinho, e ele voou, voou muito mais alto do que todos pudessem imaginar. Estudou, se formou, e um dia voltou para sua cidadezinha para estudar tudo aquilo que ele, quando criança ficava pensando sobre a terra e os animais e que seus pais nunca souberam responder. Ele se tornou doutor em biologia e foi descobrir os mistérios da vida na seca nordestina. Quando Zé Aluado chegou na roça onde seus pais moravam as crianças saíram gritando atrás dele:
– Olha o dotô Zé aluado, olha o dotô Zé aluado!!
Chegando em casa esperava rever sua familia, ao empurrar a porta encontrou apenas sua mãe, cuidando do almoço e nem percebera sua presença. Ele entrou na cozinha e fez um barulho como para avisar de sua chegada, a mãe mal olhou pra trás, voltou-se novamente para o fogão à lenha e disse:
– Tô veno.
Zé Aluado entrou, olhou a casa em que morou durante parte de sua infância e esperou. O que esperava? Seu pai e irmãos chegariam da lida para o almoço, e então? Andou pela sala e pelos quartos, passou várias vezes pela cozinha, sua mãe continuava a mexer nas panelas como se ele não estivesse ali. Zé pegou novamente as malas e saiu calado, não havia o que fazer nem dizer. Ao sair de casa o sol bateu forte no seu rosto, aquele sol nordestino que penetra no corpo. Olhou para o lado, as crianças brincavam com os pintinhos, os bodes passavam nas portas das casas e os urubus voavam em círculo em algum ponto distante, olhou então para o chão, rachado e seco, quase sem vida e seus pés começaram a andar...

Data 03/06/2009
De fckgh8hlmioufdf ibkoig
Assunto hjknijgnbugvdfg

khjkjhnm vhcvygk5465654567

Data 19/05/2009
De wellington fox de oliveira{ saudacoes raiox producoes}
Assunto a população de queimadas

eu queria que todo a população queimadese falace para o prefeito para cauça a da são matheus que esta uma calamidade QUANDO CHOVE a rua fica esburacada é quem passa por lá cai até mesmo os defisientes fisicos.

SAUDAÇÕES RAIS X PRODUÇÕES ARTISTICAS E-MAIL: 1500@orkut.com.br
ou wellington.meuspezamis@hotmail.com

Data 26/04/2009
De Tina - Queimadas
Assunto comentário adultério

O homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher , e são os dois uma só carne.Está no testamento. Portanto, Deus uniu o homem para não separar a não ser por causa de infidelidade.O fruto do bom casamento è o amor, alegria, paz,paciência, benignidade, bondade, fidelidade.Além disso, as obrigações criadas pela promessa de viverjuntos pelo resto da vida e a responsabilidade comum de criar os filhos.A vida dar uma guinada de trezentos e sessenta graus.No começo existe afeto, comunicação fluida, atração sexual .Mas com o passar do tempo, o período de encantamento romântico támbem passa, e emerge violentamente o outro aspecto da relação, que nem todos estão preparados para enfrentar juntos., No meu vê a solidão, ansiedade, tensão , insônia e a falta de um companheiro nos cria um vazio psicológico; a vida parece sem sentido e nada vale a pena,aquelas pessoas que optam por viver sozinhas durante um periodo indeterminado de tempo ás vezes se sentem egoistas, anti-sociais, e incapazes de ter boas relações com os outro. Para a perfeita compreensão das causas que elevam à necessidade de uma quebra do vínculo matrimonial, é indispensável, antes de mais nada, examinarmos as motividade do casamento ou da uniões entre duas pessoas em geral.Daí não podemos crucificar a mulher divorciada a casar de novo e dizer que está cometendo adultério . Queremos sim ser feliz com a benção de Jesus e ser perdoada e não condenada.
Queimadas 26 de abril de 2009.

 

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